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Quarta-feira, Junho 13, 2007

Porque ontem foi Dia dos Namorados e porque eu amo esse poema:

Um beijo que tivesse um blue

Um Beijo
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor

Ana Cristina César


postado por Andrea Marinho às 7:42 PM
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Segunda-feira, Maio 14, 2007

Azul e Amarelo


Quando você derrama seu riso sobre mim

E me arranca mais um dia feliz

Eu penso que, talvez, eu não mereça tanto

Não sabendo mais, entretanto,

Como poderia viver sem.

É que, às vezes, felicidade demais assusta

Eis que vem a constatação súbita

De que quando a gente ganha tudo

Tudo ainda se pode perder.

E perdê-lo seria qualquer coisa como cair ou morrer

Qualquer coisa assim que borra ou apaga

Todas as cores que há em mim.

Porque você, meu bem, é o azul e o amarelo

É o tom e é a luz que eu pincelo

E que eu penduro no meu céu.


postado por Andrea Marinho às 9:07 PM
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Quarta-feira, Abril 11, 2007

Um pouco de cinema:

Elsa y Fred

Elsa y Fred é uma dessas histórias que nos devolve a crença num amor possível. Um amor que prevalece apesar dos aparentes obstáculos que se erguem à nossa volta - e dos que nós mesmos ajudamos a erguer. E, embora se trate de um romance entre dois simpáticos velhinhos, é um história que fala, basicamente, de juventude. Porque a juventude não se mede pelos aniversários já vividos, mas essencialmente pela nossa capacidade de abraçar a vida e toda a beleza que ela nos traz. O filme é recheado de delicadeza e bom humor. É impossível não se emocionar com um te quiero propositadamente esquecido em meio à lista de compras ou com a inocência de um beijo roubado na porta de casa. É impossível não morrer de rir com as travessuras e as deliciosas mentiras da inconsequente Elsa. Ou não se comover com a solidão e a generosidade do contido Alfredo. Mas o que é impossível mesmo é não se apaixonar perdidamente pelos personagens, cujos temperamentos antagônicos encontram juntos o seu ponto de equilíbrio. Elsa y Fred nos ensina que amar é, sobretudo, aceitar as pessoas tais como elas são. Talvez seja apenas mais um caso de amor, dentre tantos outros. Porém o que o diferencia dos demais é a coragem de vivê-lo em detrimento de conceitos menores, como tempo, idade e convenções sociais. E nos faz lembra que o melhor investimento é mesmo a felicidade e que a concretização dos nossos sonhos, mesmo os mais extravagantes, não precisa ser adiada para um futuro distante. É um filme para se ter na estante de casa e, de preferência, bem guardado na memória, para não se esquecer que o sentido da vida é, sempre, o amor. O velho e batido amor.

Andrea Marinho


Sobre o filme:

Título no Brasil: Elsa e Fred - Um Amor de Paixão
Título Original: Elsa y Fred
País de Origem: Espanha / Argentina
Gênero: Comédia / Drama
Tempo de Duração: 108 minutos
Ano de Lançamento: 2005
Direção: Marcos Carnevale

Onde assistir (NatalRN): Moviecom - Praia Shopping


postado por Andrea Marinho às 1:37 PM
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Sexta-feira, Março 23, 2007

Depois

Depois de te respirar em cada pausa
E te sentir em cada vento
E te encontrar em cada fuga.
Depois de te ouvir em noites surdas,
De te pedir em preces mudas,
De te inventar em sonhos lúdicos.
Depois de te matar serialmente
E te enterrar em meu cansaço,
Ver-te crescer em meu jardim.
Depois de espirrar tuas lembranças,
De adoecer em tuas feições,
De me curar entre teus lábios.
Depois de te abrigar em meus poréns,
De te esconder em minhas vírgulas,
De te espalhar em reticência.
Depois de te camuflar em minha rotina,
De escorregar em teus adeuses,
De me erguer em tua ausência.
Depois de te largar em meus receios
E te guardar em meus anseios,
Desenhar-te em meu futuro.
Depois de te julgar em minhas dores
E te condenar perpetuamente
E te prender em minha história.
Depois de te chamar em cada grito,
De enganar os meus sentidos,
De abrir mão dos meus caprichos.
Depois de te odiar umas mil vezes
E de implorar para que fiques
Outras tantas mil.
Depois de uma década (ou mais)
Sem te saber ou te olhar e, todavia,
Conhecer-te ainda além.
E já depois de te amar tanto (tanto, tanto),
Cá estamos - tu e eu -
A dois passos de nos atirarmos
No mesmo abismo de nós dois.


postado por Andrea Marinho às 8:07 PM
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Quinta-feira, Março 15, 2007

Texto antigo, esquecido numa pasta do computador. Foge um pouco do meu estilo habitual, mas pelo menos movimenta um pouco isso aqui...
.
Canis lupus.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez. Não existia para mim ainda uma consciência bem definida do que era a morte. Matar, pois, era uma idéia tão vaga quanto me eram desconhecidos os meus instintos. Eu caminhava a deriva pela mata, ainda filhote. Perdera-me da minha mãe uma dúzia de horas antes e a fome começava a dar sinais. Eu ofegava, sem fôlego e sem quase mais nenhuma energia para queimar. Foi então que escutei um barulho próximo, um chiado de folhas mexendo-se. Seria minha mãe camuflada em meio à folhagem? Aproximei-me um tanto eufórico, desviando os galhos para conseguir enxergar adiante. Finalmente, vi um pequeno bicho agonizando, parecia ferido. Fui ao seu encontro e pude ver sua pelagem alva manchada de sangue. Ele, indefeso, mirou-me em pânico. Senti a fome atacar-me de vez e meu corpo, de súbito, começou um processo involuntário de transformação. Minhas garras crescidas mostravam-se ansiosas e a saliva escorria queixo abaixo enquanto meus dentes se tornavam cada vez mais salientes. Eu não queria machucá-lo, posso até dizer que senti dó dele no início. Mas a natureza dominou-me com mais força do que eu podia conter e minhas patas saltaram em direção àquele pobre animal imobilizado. Ainda sou capaz de experimentar a sensação da primeira mordida. Meus caninos penetraram a carne macia e o sangue doce encharcou-me a boca feroz. Podia sentir cada célula sendo saciada a cada nova dentada. O prazer e a culpa invadiram-me a garganta, estômago e intestino, numa sensação dualista de auto-censura e satisfação. Não, eu não queria matá-lo, mas ¿ depois eu soube ¿ seria impossível não fazê-lo. Saí dali cabisbaixo, assustado com minha própria crueldade que até então ignorava. Porém sentia-me forte, apesar de aflito. Poderoso, apesar de envergonhado. E, com o tempo, o instinto foi ganhando outras batalhas com a consciência e o remorso foi sucumbindo à vaidade. Virei um predador. Dos mais temidos e respeitados em toda a floresta. Minhas artimanhas foram ficando mais sofisticadas e meus golpes, mais atrozes. Não havia presa que escapasse à minha cobiça. E, confesso, sustentei até um quê de sadismo ao longo da vida. Mas isso eu só vim perceber anos depois quando me peguei repetidamente sorrindo largamente diante do pânico alheio no instante anterior ao ataque. Abandonei os bons princípios aos poucos até não me restar mais quase nada. Vocês sabem, até na selva há normas de conduta. Violei-as todas. Fui matador, arbitrário e tirano. Desrespeitei a hierarquia dos bichos, ataquei famílias inteiras, fiz carnificina. Mas hoje estou velho. E a velhice no meu mundo é mais cruel do que todas as mortes. Nessa idade, aos quase vinte anos, a vaidade cresce na proporção inversa à disposição física. E a minha inutilidade não é pura, vem misturada com o peso do que eu fui um dia, daquilo que não mais serei. Fui esquecido, ninguém mais lembra de minhas glórias. Outros predadores tão ou mais bravos que eu já apareceram depois. Vago pela mata à procura de restos, carniças podres deixadas para trás. Sinto agora uma imensa inveja daquela minha primeira presa que morreu ainda tão jovem. Pudera eu trocar de posição com ela naquele dia e tomar-lhe o lugar de animal indefeso, porém digno. Hoje não posso sequer desejar morrer devorado por algum animal faminto, não posso sequer ser útil para saciar a fome de outrem. Minha carne é velha e dura, tão inadequada quanto eu me sinto. A morte com a qual convivi durante toda a vida, hoje me escapa como um castigo. Mas eu a espero chegar, lentamente. Porque a natureza sempre vence, cedo ou tarde.

Andrea Marinho
.
"Homo homini lupus"
"O homem é o lobo do homem"
(Thomas Hobbes)


postado por Andrea Marinho às 1:52 PM
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Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Fórmula para um fim de semana melhor:


Veja: Pequena Miss Sunshine


Escute: Moptop


Leia: Paulo Leminsk


postado por Andrea Marinho às 9:21 PM
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Sexta-feira, Outubro 20, 2006



Pra você.

Chegou o seu dia e ainda olho em volta em busca de algo para presentear-lhe. Nada encontro que seja suficientemente bom. Eu queria dar-lhe mais do que alcanço. Todas as cores ainda sem nome, todas as luas que não se pode ver nesse céu. Eu queria dar-lhe um sonho, uma razão a mais pra sorrir. Qualquer uma dessas coisas impossíveis de tocar, que não cabem nas mãos e que, no entanto, não se perdem nem se desgastam. Eu queria dar-lhe a euforia do carnaval e a calmaria de um feriado perdido numa quarta-feira qualquer. Todas as emoções que podem caber num suspiro de prazer ou de paz. Eu queria dar-lhe todo o calor que trago no corpo, um abraço que deixe marcas através dos anos, um beijo cujo sabor não se acabe nem diminua. Todos os sonetos que ainda não recitei, todas as palavras doces que ainda não escrevi. Eu queria dar-lhe o som de uma música leve para acalentar seu sono, um balanço de rede no fim da tarde, o gosto de fruta doce recém colhida do pé. O mar, uma estrela, o verão. Eu queria dar-lhe as estações do ano de uma só vez. Uma cabana numa praia distante, um rio que banhe o seu jardim. Eu queria dar-lhe todo o conhecimento que ainda não adquiri, todas as idéias que ainda não tive e um bom segredo que ainda nem descobri. Eu queria dar-lhe um sentimento sem convenções, sem hora marcada, sem data, sem regras quaisquer. Um sentimento sem amarras, sem limites, sem tamanho. Daqueles que não cabem no corpo, que transbordam pelos poros, que explodem a cada encontro, repetidamente e sempre. Eu queria dar-lhe um domingo sem tédio, o som da chuva no telhado para fazer melodia enquanto você dorme, o cheiro de café para despertar-lhe pela manhã. A aurora, o ocaso, o acaso. O encontro entre o céu e o mar. O horizonte. Eu queria dar-lhe um sorriso diferente para cada hora do dia, o sol que se derrama no fim da tarde em fios de laranja e anil. Todos os mitos, todos os credos. Toda a esperança de um mundo melhor. Eu queria dar-lhe o canto de um sabiá ou de um rouxinol, o acalanto de uma maré baixa. A brisa que afaga o rosto e acaricia a alma. Nuvens brancas, amarelas e azuis. Eu queria dar-lhe o mundo, mas não o tenho. Tenho para dar-lhe somente aquilo que trago em mim. E o que trago em mim é o amor que você desperta. Tão puro, doce e imenso que eu mal posso explicar. E que carrega nele todas essas pequenas coisas que descrevi e mais. Muito mais do que cabe nesse papel. É o que tenho e é o que lhe darei hoje e sempre, infinitamente.

Andrea.

P.S.: Escrito em 10 de outubro. Postado com atraso, entregue em dia.


postado por Andrea Marinho às 7:22 PM
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Terça-feira, Agosto 29, 2006

Pelo justo direito de permanecer alienada.

Ano eleitoral. E como se já não bastasse toda a imoralidade que impera na política nacional, como se fosse pouco todo o dinheiro público enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres, como se já não houvesse motivos demais para se enojar com o descaramento dos nossos governantes estampados nas capas de todas as revistas semanais e em todos os noticiários de todos os canais televisivos, eu ainda tenho que agüentar carreatas engarrafando ainda mais o trânsito, carros de som perturbando minha paz, lixo eleitoral na minha correspondência, a poluição visual nas ruas da cidade que mais parece um gigante outdoor político e, o pior, ter que ouvir de dois em dois minutos os mesmos mentirosos - ou os filhos, irmãos ou agregados deles - na televisão, contando sempre as mesmas mentiras (e que se, na melhor das hipóteses, mais parecem piadas, já perderam a graça) dia e noite, noite e dia, incansavelmente.
Tudo bem, eu até já desisti de reclamar da corrupção desavergonhada que estoura de semana em semana sob um novo rótulo (mensalão, sanguessuga, blábláblá), da política social demagoga e da economia que só sobe nos índices e nunca na minha conta bancária. Eu até já desisti de ter esperança em qualquer pessoa que se apresente por um número nos anos pares. E deixei há muito tempo de acompanhar as intermináveis CPI' s de tudo-no-mundo e que nunca dão em absolutamente nada. Mas eu bem que podia, pelo menos, ser poupada dessa palhaçada pré-eleições. Eu bem que podia ir à praia aos domingos sem ter que atravessar quatro ou cinco carreatas diferentes na Avenida Engenheiro Roberto Freire. Eu bem que podia não precisar interromper uma música do Chico que toca enquanto procuro sossego na sala da minha casa para ouvir um jingle barato com rimas baratas e promessas baratas de um candidato para lá de caro pro bolso do povo. Eu bem que podia ter o justo direito de não ser invadida por toda essa baboseira que, além de hipócrita, é extremamente irritante.
Protesto, pois, pelo fim de toda a propaganda eleitoral, gratuita ou paga (e os meus amigos publicitários que me desculpem). Afinal, o povo já sabe de cor o que eles têm a dizer - é sempre o mesmo discurso e sempre as mesmas caras (com botox ou não). No dia de votar, é só sortear um número qualquer que a diferença será mesmo imperceptível na prática. Assim, é bem melhor assistir à novela, nas quais todos os mocinhos são bonitos, empregados e têm um final feliz.


postado por Andrea Marinho às 1:42 PM
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Segunda-feira, Agosto 28, 2006

MAIS UM LANÇAMENTO JOVENS ESCRIBAS
Escolha o Título - Daniel Minchoni
08 de setembro, 18h
A.S. Livros - Praia Shopping


postado por Andrea Marinho às 3:22 PM
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Quarta-feira, Junho 28, 2006

Sobre uma véspera.

Todos os dias são vésperas. Em cada véspera, uma expectativa nova e a esperança que renasce, ainda depois de morta tantas outras vezes. Eu não sei o que se encontra do outro lado dessa porta que separa o presente do futuro. Eu não sei o que me aguarda por trás das sombras da noite que precede o próximo amanhecer. Eu não sei quando, como ou por quê. Eu não sei (quase) nada sobre amanhã.
E esse não-saber é qualquer coisa que mantém vivo em mim o desejo de continuar firme, de virar a maçaneta, de ouvir o roncar da porta ao abri-la. De não estar simplesmente esperando, mesmo enquanto espero. De não permanecer inerte, ainda que eu não possa escapar da correnteza. Porque não saber é pressuposto da esperança. Porque não saber é o que nos possibilita imaginar, inventar, idealizar. Porque não saber nos permite, sobretudo, sonhar.
Todos os dias são vésperas, e hoje é mais véspera do que ontem. Porque o amanhã é grande, tão grande, que quase invade o momento presente. Porque o amanhã para mim é mais do que um talvez, vai além de um delírio sem forma: é uma promessa prestes a se realizar.
E hoje, enquanto véspera mais véspera do que os outros dias, eu me vejo mergulhada nessa felicidade triste de quem precisa largar o ontem para ganhar o amanhã. Um ontem que não foi sempre bem-vindo, é verdade. Mas um ontem que me foi prestante e que me foi presente por tempo o suficiente para me integrar. Esse ontem que me fez diferente, que me fez sozinha pra me fazer melhor. Aquele mesmo ontem que me tirou o chão tantas vezes e me fez cair, cair, cair até que eu aprendesse (e desaprendesse novamente) a voar. Um ontem que hoje eu deixo pra trás, embora eu saiba que estará em alguma parte de mim para sempre. Porque no amanhã ainda haverá todos os ontens, escondidos nos traços do meu rosto e na força dos meus ideais.
Hoje eu queria dissolver a angústia, desmanchar as dúvidas e mergulhar na esperança doce da quase-chegada. Eu quero ser quase, a um passo de ser completa. Eu quero, apenas e tão-somente, acreditar.


postado por Andrea Marinho às 8:58 PM
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Segunda-feira, Junho 19, 2006

Sobre clichês e outros lugares-comuns (ou nem tão comuns assim).

Desculpe-me pela demora. É que ando feliz demais para escrever. E a felicidade, tal qual a tristeza, é muitas vezes como um nó na garganta. As palavras, de súbito, emudecem e o silêncio, diferentemente de outros tempos, quase flutua de tão leve. Não que não exista um milhão de coisas para te contar, há, ao contrário, tanto sobre o que falar nesses últimos meses. Na verdade, eu não queria te encher os ouvidos de clichês já tão gastos noutras bocas. Só que é difícil não socorrer-me de todos esses verbos batidos, especialmente quando eles se transformam, imperceptivelmente, em doces verdades - das quais não posso nem quero escapar. Eu poderia até mesmo citar dois ou três poemas daquele poeta chileno de quem tanto gosto ou poderia cantar uma das minhas músicas preferidas do Drexler ao pé do teu ouvido. E, ainda assim, eu não teria te contado quase nada sobre o que tem me acontecido recentemente. Então, eu poderia usar todas aquelas palavras grandes como para-sempre e nunca-mais ou todos os superlativos desse ou d'outro idioma qualquer. De repente, talvez, eu já não me importe tanto com a banalização daquela expressão que repito até perder o fôlego, nem me incomode mais a vontade de ser cafonamente feliz. Porque, embora vestida com todas essas cores que cegam de tão forte, a felicidade é mais do que bem-vinda num coração que batia vazio, ainda que sem perceber. Por isso, eu a deixei entrar sem me preocupar com tempo, medo ou porquês. Eu a deixei entrar enorme, intensa, absoluta. Mais do que isso: eu a abracei forte e lhe pedi que, por favor, não fosse embora. Não dessa vez. E, devo confessar, apesar de todos os maus passos, apesar de todas as palavras de dor e descrença vomitadas nas telas brancas de outras épocas, ainda me resta - e é isso que me move - a esperança de que será diferente. Porque diferente é também tudo o que sinto hoje. Diferente não somente por ser novo. Diferente, sobretudo, porque único. E o que o faz único é justamente essa certeza que me invade e me entorpece. A certeza de que, haja ou que houver, eu finalmente te encontrei, mesmo sem saber o quanto procurava. "E até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei".

Andrea Marinho.


postado por Andrea Marinho às 5:05 PM
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Quinta-feira, Abril 27, 2006

Sobre nossos sonhos.

Ontem, na padaria, comprei dois sonhos. Um pra mim e um pra você. O moço do balcão pôs os dois juntos, pressionando-se mutuamente, num saquinho bem pequeno de papel amarronzado.
No caminho de volta, tomei muito cuidado com aquele embrulho, salvando-o dos empurrões e indelicadezas dos passantes e protegendo-o da chuva que prometia cair. Afinal, os sonhos são delicados e até um pouco temperamentais, de modo que, dependendo de como são (mal) tratados, tendem a esfarelarem-se.
Ao chegar em casa, retirando-os do saquinho para que pudessem respirar aliviados, perplexamente constatei: havia apenas um sonho, grande e levemente deformado. E logo compreendi o ocorrido.
Depois de muito brigarem egoisticamente por espaço no apertado depósito, eles - os sonhos, meu e seu - decidiram fazer as pazes para finalmente se abraçarem em busca de uma posição mais confortável para ambos e, de repente, uniram-se num só.


postado por Andrea Marinho às 6:20 PM
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Segunda-feira, Abril 10, 2006

Sobre a noite.

Amor, a noite é morna e doce como teus lábios.
E, no entanto, no escuro, escondo-me de ti,
Como um animal trepidante.

É que o brilho que brotou dos teus olhos
Esmagou-me por demais a esperança
De sobreviver aos teus sonhos que são altos
Como a estrela que não cai nem se apaga.

Não te posso dar todas as luas que mereces,
Nem, tampouco, todos aqueles palcos
Que hão de erguer-se, majestosos e gigantes,
Sob os teus sapatos.

Não sou muito além de uns versos (mal) escritos
Num papel que, amarrotado,
Adormeceu esquecido em teu bolso.
Porque sou, tão-somente, mais um
Desses rostos que se misturam despercebidos
Na multidão que te segue em desespero
Enquanto voltas cansado para casa.

Indigna sou eu de tua presença luminosa.
Indigna demais para os teus braços.
Quisera ter nascido noutro mundo
E não ter que te encarar todas as tardes.
Pois que o sol, de repente, fica frio
E eu me sinto derreter quando anoitece
Para tua ausência tocar fogo no meu quarto.

Amor, a noite é morna e doce como teus beijos.
E, por uma razão qualquer que desconheço,
Sinto um calor gélido pelo corpo.

E, assim, apenas meio lúcida, desconfio
Que o oceano inteiro que bebi na tua íris,
Deixou-me com uma sede insuportável
Na travessia dessa eterna madrugada.

Pergunto-me, então, quantas águas
Ainda vão precisar chover de nós
Para que seja possível navegar
(De veleiro ou de navio, tanto faz)
No abismo que se abriu, silencioso,
Entre o teu coração e o meu.

Agora, embriagada e solitária,
Chamo-te numa mudez ofegante,
Porque não ouso levantar a voz para o teu nome.
O mesmo nome, morno e doce como a noite,
Que ecoa ritmado no meu peito.


postado por Andrea Marinho às 8:17 AM
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Terça-feira, Março 28, 2006

Das coisas que eu queria dizer-lhe vez em quando.

É que há certas coisas que eu queria dizer-lhe vez em quando. Essas coisas que não se consegue falar em voz alta logo que são descobertas, que demoram para ser assimiladas e que, de repente, quando o são, gritam alto lá dentro e emudecem todo o resto, sabe? Essas coisas que ficam presas entre uma e outra frase casual numa manhã de domingo ou entre um e outro pensamento banal nas madrugadas acesas. Aquelas coisas que tropeçam na língua, que se agarram nos dentes e morrem nos lábios com um sussurro por não saberem sê-las inteiramente, entende? Falo dessas coisas que não têm nome e não têm forma, nem têm medida, tampouco. Que vão além do visível, do palpável, do inteligível. Coisas assim, tão sutis e tão surpreendentemente devastadoras, como a forma como você levanta a sobrancelha ao falar e me deixa sem raciocínio, sem respiração e sem sentidos quaisquer. Ou como aquilo que senti quando sua mão deslizou levemente em minhas costas pela primeira vez e eu pude sentir seu calor derretendo em cada milímetro meu. Coisas como essas, completamente desconhecidas antes de acontecerem porque únicas. Aquelas que não cabem no corpo ou na mente e que se perdem nas profundezas de um abismo cuja imensidão é tanta que foi preciso muitas vidas para se formar. Isso me impressiona, às vezes. Esse abismo em que as coisas se perdem antes de chegarem ao seu destino. Eu-te-amo's vagando sem eco, para-sempre's partidos ao meio. E sonhos, tantos sonhos. Sonhos doces que se derreteram como açúcar pelas chuvas da vida. Porque a vida, muitas vezes, é somente um grande verão com chuvas. Refiro-me, pois, a todas essas coisas incríveis e absurdamente simples, compreende? Essa simplicidade que choca de tão crua. E agora, já depois de tanto silêncio, não sei se ainda posso dispor de palavras suficientes para dizer-lhe essas coisas todas que nunca lhe disse. Já não sei se haveria vocábulo ou verso ou soneto ou música ou até mesmo livro, tese ou tratado filosófico que pudesse explicar tais coisas sem que ainda faltasse um mundo inteiro para dizê-las. Porque dizer-lhe simplesmente que você nasceu em mim com uma força e uma definitividade tamanha que não poderei nunca mais ter sequer idéia do que eu era antes, vez que antes de você eu era uma existência tão ignorável tão vácuo tão nada que seria impossível supor existir realmente; dizer-lhe simplesmente que seus olhos é o único oceano em que consigo mergulhar por inteiro e em cujas águas sinto-me diluir pouco a pouco até que meus pedaços estejam tão misturados aos seus pedaços que já não há contorno ou limite ou fronteira que possa nos separar completamente de novo; dizer-lhe simplesmente que basta você se aproximar para todas as sombras do mundo se esconderem com medo da luz que irradia de cada fio de seus cabelos e dos seus pêlos e poros e de sua pele toda; dizer-lhe simplesmente que há dias em que sua ausência me dói tanto, tanto, tanto, que voltar a ver-lhe é como ressuscitar depois de ter morrido uma, duas, mil vezes; porque dizer-lhe tudo isso seria muito e, no entanto, quase nada perto de certas coisas que eu queria dizer-lhe vez em quando.


postado por Andrea Marinho às 5:45 PM
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Sábado, Março 18, 2006

Sou eu.

Aquele que me olha
Do outro lado da porta
Sou eu.
Como sou eu aquele que me abraça
E aquele que me afasta
Da mesma forma, sou eu.

Sou eu aquele que me dá a mão
E aquele que me empresta o corpo
Todos eles - sou eu.
Também aquele que me fere
E aquele que me ama
Igualmente, sou eu.

Assim como sou eu, ainda,
Tudo aquilo que me preenche
E tudo o mais que lhe pertence
Sou eu,
Sou eu.

Então, sou eu os seus olhos e seus braços
Os seus dentes, sua boca e seus traços
Sou eu sua presença, enfim.
Seus segredos, suas mentiras
Suas medidas
(Quase) todas, sou eu.

Além disso, sou eu em seus espelhos
Suas chegadas e suas despedidas
Tudo isso - e mais - sou eu.

Porque na vida só possuo a certeza
Que só me cabe um modo de ser
E, por isso, eu só sou eu mesma
Quando, finalmente,
Sou você.


postado por Andrea Marinho às 12:26 PM
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Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

Imaterial

Eu não sei o que fiz
Nessa ou noutra vida
Pra merecer cada som e cada curva
Das poesias com que me brinda
Sua mente de artista

Esses presentes que são flores
E são bombons
Em cada letra, uma pétala
Em cada verso, o prazer
Do doce que derrete
Na tela branca entre nós dois

Sim, eu ando sobre meus saltos
Perambulo em suas vias - seriam minhas?
Percorro seus asfaltos
Gastos
Pelos outros que não eu
Mas, garanto, não pretendo
Pisar-lhe o peito ou o juízo
Nem poderia, já que hoje
Piso leve, vôo baixo

E eu danço sem saber
Abro os braços, as cortinas
Deixo o vento levar
Cada passo
Pra compor uma música qualquer
Amanhã, quem sabe, vou bailar
No palco ou no mundo
Que você me ergue

Se sou seu vácuo e você, meu nada
Somos vento, abstratos
Somos sons e somos luz
Somos mais
Do que o que pode tocar
O ar


postado por Andrea Marinho às 9:15 PM
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Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Entre versos além.

Já não enxergo mais as cores
Nesse mundo de amores parcos
Meus aplausos ecoam abafados
Na platéia esvaziada desse circo
Em que ontem os versos de Chico
Fez cantar dois corações atados
Sem saber que todos os barcos
Amanhã desaguariam em dores

Tampouco encontro os motivos
Pra crer nos cem ou mil sonetos
Que à Matilde dedicou Neruda
Pois real mesmo era o Vinícius
Que se inspirava com os inícios
E reconhece que o homem muda
De amor em amor, como os ventos
Que nunca hão de ser definitivos

Diante disso já não me espanta
As palavras da ilustre portuguesa
Que ousou ambicionar em poesia:
Amar só por amar: Aqui... além...
E, amando todos, não amar ninguém
Pois há uma primavera em cada dia
E no amor eterno falta franqueza
Assim sentenciou Florbela Espanca
*

Andrea Marinho
_______________________________________________
*Referência ao poema Amar!, adiante transcrito:

Amar!

"Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."

Florbela Espanca


postado por Andrea Marinho às 7:01 PM
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Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

Lançamento do Livro É Tudo Mentira de Carlos Fialho. Dia 09.02, essa quinta-feira, na A.S. Livros do Praia Shopping a partir das 18:00h.

Anúncio por Renato Quaresma.

P.S.: Essa propaganda é completamente isenta de parcialidade, estou divulgando porque é realmente bom! =)


postado por Andrea Marinho às 1:35 PM
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Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006

Depois de ler "A Utopia" de Thomas More e de ter me apaixonado por Eduardo Galeano, eu ando colecionando ideais românticos e politicamente corretos... Já não me bastavam os meus problemas?

Band-Aid

Eu queria ser fúria. Num impulso acalorado, eu queria ser tempestade, furacão, moinho, tornado. Paixão. Ser a artilharia que derruba as vigas dos castelos esculpidos de avareza e vazios de idéias. Eu queria ser guerra. Atacar todo o império de egos hipertrofiados, bombardear a vaidade ambiciosa dos feios de alma, insurgir contra a repetição sádica dos acontecimentos, para acabar com a desesperança que reprime os sonhos e exterminar a epidemia de conformismo e incultura que assola as mentes.

Eu queria ser justiça. Num desejo lúcido, eu queria ser ventania branda, aragem, alento. Eqüidade. Ser recompensa para os tantos inocentes condenados a cumprir as penas alheias, ser equilíbrio para o descompasso entre os povos. Eu queria ser retaliação. Responder com música aos gritos bélicos dos que não sabem ouvir, colorir o cinza de quem vive de sombras, disparar flores no inverno dos dias, para devolver a fé de quem já cansou da submissão dos homens às coisas.

Eu queria ser compaixão. Num devaneio utópico, eu queria ser brisa, aura, sopro, sussurro. Solidariedade. Ser a consciência tranqüila dos corações incorruptos e a ternura que dança nos olhos dos bem intencionados. Eu queria ser paz. Espalhar a segurança que se doa com um estender de mãos, distribuir a pureza que nasce em cada abrir de braços, difundir a candura guardada em cada sorriso infantil, para que um dia, quem sabe, a humanidade possa consertar o mundo que antes quebrou.


postado por Andrea Marinho às 6:06 PM
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Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Caracteres.

Sou palavras em aberto
Frase impronunciada
Verso incompleto
Poesia inacabada

Sou letra desarmônica
Escrita sem gramática
Sinopse tragicômica
De uma peça dramática

Sou vírgula e nunca ponto
Sou trema em extinção
Personagem de um conto
Dois pontos sem conclusão

Sou fonte, linha, espaçamento
E o que não cabe num parágrafo
Sou carta sem endereçamento
Rascunho de um texto ágrafo

Sou a união de predicados
Para apenas um sujeito
Sou acentos mal colocados
Numa frase de efeito

Sou aspas e travessão
De um diálogo inventado
Sou um etecetera sem razão
Pra o que já foi explicado

Sou reticências.


postado por Andrea Marinho às 7:30 PM
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Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Chuva Salgada.

Eu só queria saber quando vai passar essa chuva que cai dos seus olhos.
Você chove por inteira. Chove lágrimas sem parar. Embreaga-se, afoga-se, não se cansa de irrigar essas antigas dores que já aprenderam a nadar há tanto tempo, diferentemente de você.
Será que já não foi suficiente para acabar com toda a seca que havia no sertão do seu peito?
Será que já não serviu para fazer brotar flores na primavera de seus sorrisos que você insiste em esconder?
Responde-me, então, o que ainda falta para molhar, além da sua alma encharcada de mágoas? Para quê regá-las? Para quem?

Andrea Marinho
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"Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto..."


(Trecho de Nalgum Lugar - Zeca Baleiro)


postado por Andrea Marinho às 4:38 PM
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Terça-feira, Novembro 29, 2005

Trilha.

Já é hora de parar, alguém falou certa vez. E era. Mas é difícil parar bruscamente, eu pensei. Precisava reduzir a marcha, diminuir a velocidade antes de pisar no freio. E ninguém nunca me disse quanto tempo isso poderia levar. Anos se passaram desde então. Anos lentos, cheios de buracos e curvas sinuosas. É verdade, havia alguns trechos bem bonitos na estrada, dependendo da estação. Havia flores em alguns canteiros, havia até magia em certas paisagens. Mas aí a chuva vinha e molhava o vidro do carro, molhava-me os olhos e a visão do caminho ficava turva e embaçada. Houve dias em que eu não enxeguei as placas de sinalização e passei direto nas pistas perigosas. Eram tantas. Viver é muito perigoso, já dizia uma Rosa em pleno Sertão. De fato, é. Tanto perigoso quanto emocionante. O problema surge mesmo quando a gente se acostuma com a essa emoção constante que sempre se acompanha do perigo imódico. Então, a vida vira uma cachoeira de adrenalina, onde a queda nem sempre é aprazível. E a gente acaba se machucando muito mais do que se divertindo no fechar das contas. Não me arrependo das trilhas que segui. Em algumas delas tive boas companhias que fizeram valer a pena cada passo mal dado. E aquelas nas quais andei sozinha, eu pude prestar mais atenção nos sinais de saída. Sempre há uma saída perto, boa ou ruim. Resta saber se agora eu já posso frear sem cavar um buraco no chão.

Andrea Marinho
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Soneto do Orfeu

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar, que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.


(Vinicius de Moraes)


postado por Andrea Marinho às 2:34 PM
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Segunda-feira, Novembro 28, 2005


Para ver, ouvir e se apaixonar.

Meu pai me apresentou os Beatles quando eu ainda era pequena demais para entender a sua grandeza. E eu devo a ele o prazer de ter conhecido a melhor banda de todos os tempos cedo o suficiente para que ela se tornasse parte da minha história. Depois veio Carpenters com a irretocável Close to You; Frank Sinatra e suas pérolas, entre elas My Way; Bread com a singela If; Bee Gees com o hit How Deep Is Yor Love. E, para me mostrar que Brasil não fica por baixo, ele me presenteou com as canções de gênios musicais do calibre de Cartola, Noel Rosa, Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho e, claro, Vinícius de Moraes. Meu pai me ajudou a construir a trilha sonora da minha vida. E, a partir daí, aprendi que viver sem música é como caminhar por um jardim sem flores. E mais: o mundo sem poesia é como todos os anos sem uma única primavera. Vinícius de Moraes foi mais poesia do que música, não obstante tenha sido um dos principais colaboradores da música popular brasileira de qualidade. Vinícius, o poetinha, entrou na minha vida por meio de Valsa Para Uma Menininha, que embalou-me tantas noites na voz do meu pai e me emociona até hoje, e se perpetuou com toda a sua antologia poética que repousa sobre a minha cabeceira através dos anos. Recentemente, estreou nos cinemas o documentário sobre seu vida e obra. Vinícius, de Miguel Faria Júnior, conta com a participação de Antônio Cândido, Ferreira Gullar, Chico, Toquinho, Carlos Lyra, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tônia Carrero e outros artistas, familiares e amigos que contam e cantam um pouco da vida peculiar do poeta que mais se aproximou do nosso povo. Sem falar nas interpretações de Camila Morgado e Ricardo Blat que, unidas à magnitude dos poemas de Vinícius, emociona até os mais resistentes corações. É evidente, no entanto, que seria impossível resumir tudo o que Vinícius de Moraes fez e foi em um vídeo com apenas duas horas de duração. Como não poderia deixar de ser, muita coisa boa ficou de fora, dada a extensão e qualidade de sua obra. Mas o filme é, indiscutivelmente, imperdível. Se fundamental é mesmo o amor, Vinícius não fica longe disso.

Andrea Marinho.
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"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo."


(Vinícius de Moraes)


postado por Andrea Marinho às 6:06 PM
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Quarta-feira, Novembro 23, 2005

Sobre um abraço uruguaio.

Ontem à noite eu morri. Estava já deitada com meu pijama azul quando deixei-me morrer sem aviso. Não sei bem explicar de onde a morte veio, por onde a morte entrou. Mas tenho a confusa impressão de que ela entrou pelos olhos ou talvez pelos poros das minhas mãos. Não sei ao certo. Algo me diz, entretanto, que o coração também teve alguma coisa a ver com isso. Ele é sempre suspeito, seja lá do que. Mas, não, eu não posso dizer com certeza como tudo começou. A última coisa de que me lembro com clareza foi de ter aberto aquele livro. De súbito, um abraço violento e quente me imobilizou como uma corrente apertada. Perdi o ar, as forças, a consciência. Foi nesse momento que a morte me invadiu. E já depois de matar meus sentidos, ela se espalhou devagar, contaminou cada célula e se infiltrou por meus vasos a fim de permear todos os tecidos e órgãos e tripas. Então, a morte correu e correu e correu em mim até finalmente se diluir inteira pelo meu sangue. E, assim, de repente, eu já era toda morte. Corpo, alma e pensamentos mortos.
Ontem à noite eu morri nos braços de Eduardo Galeano. Porque eu nunca mais poderia viver como antes depois de ser abraçada por aquele livro.

Andrea Marinho
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A função da arte - Eduardo Galeano

"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
Me ajuda a olhar!
"

(Em O livro dos Abraços)


postado por Andrea Marinho às 9:04 PM
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Sexta-feira, Setembro 30, 2005

Porque hoje eu estou demasiadamente intensa...

Tua dor em mim.

E a tua dor me dói tanto quanto a minha própria. Ou mais. E saber-te triste é como sentir a lâmina fria de uma faca a cortar-me peito adentro. É como morrer aos poucos enquanto derreto-me em lágrimas vermelhas. Ou como morrer por inteiro a todo instante. E choro-te rios de sangue em cujas correntezas afogo-me. E sofro dias a fio sem saber estancar o desespero de não conseguir proteger-te. Pois salvar-te é tudo o que mais posso desejar, ainda que não seja das mais nobres essa minha ânsia. Egoisticamente, tento salvar-te. Só assim viabilizo a busca da minha própria salvação que em ti reside. Porque nunca poderia manter-me hígida senão na presença dos teus riscos. E se não me cabe, por ventura, arrancar-te das garras daqueles que não te merecem nem te sabem amar, algo dentro de mim fenece ou rasga-me como um tiro. És para mim a única coisa a ter sentido nesse mundo invertido. A última razão para não enlouquecer de vez. E quero-te, pois, incólume da podridão do universo. Quero-te são. Pois não haveria para mim golpe maior do que o de ver-te como os outros, maculado, contaminado pelo veneno da vulgaridade. Quisera eu ter o poder de levar-te para longe, onde a vida é menos dorida, os amores menos penosos, a realidade mais fictícia. Ah, eu te daria tudo, eu te daria tanto. Dar-te-ia a paz de todos os santos. Dar-te-ia mais. Porém tu me escapas por entre os dedos. Evade-te por um mundo que não te faz jus. Perde-te em bocas que te maldizem. Não sabes tu, entretanto, o quão mal me faz essa tua mania de pôr-te em constante risco e de ferir-te tanto. É que a tua dor me dói tanto quanto a minha própria. Ou mais.


postado por Andrea Marinho às 8:32 PM
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Segunda-feira, Setembro 26, 2005

Ludíbrio.

Confesso, eu minto. Descarada e desavergonhadamente. E venho mentindo há tanto tempo que acredito hoje não saber mais me comportar de outra maneira. A verdade já não me é uma alternativa possível, posto que minto compulsória e patologicamente. Diante do que peço: não acredite numa palavra sequer que lhe diz essa boca minha descontrolada e fingida, nem confie nesses meus olhares que dissimulam de forma tão persuasiva os sentimentos que não lhe têm. Não, não se convença com meus abraços, são todos falsos e ilegítimos como eu. Nem se renda ao meu corpo tampouco, pois que seus movimentos manipulam com uma leviandade tamanha que não posso conter. Sou por inteiro uma farsa, impostora sem escrúpulos ou remorsos. Não valho sequer os minutos que você agora perde ao tentar me entender. Nem mereço, muito menos, o mínimo de sua compaixão, piedade, comiseração para comigo. Porque eu minto. E minto tanto e tal de modo que eu seria capaz até de te fazer crer sem ressalvas no meu discurso afiado e hediondo de que eu não mais lhe tenho amor.

Andrea Marinho.
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"Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre."


(João Cabral de Melo Neto)


postado por Andrea Marinho às 5:41 PM
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Sexta-feira, Setembro 23, 2005

O de sempre, por favor.

Pode trazer uma dupla, hoje eu quero comemorar. Ah, comemorar a vida, ué. Porque a vida é uma coisa maravilhosa, o senhor não acha? Sabe quantos espermatozóides competiram para cada um de nós estarmos aqui? Estar vivo é por si só uma vitória. Somos todos vitoriosos, eu, o senhor, todo o mundo. Até o Seu Geraldo é um vitorioso. Quem diria, o Seu Geraldo, hein? Quem olha num diz nunca, com aquela cara de salada de maionese estragada, mas ele também foi um campeão. Ele ta vivo, é ou não é? Pra o senhor ver, a vida é mesmo surpreendente, ontem eu perdi o emprego e hoje eu to aqui com o senhor, comemorando, feliz que só menino pobre quando chove. Num dia a gente quer matar, morrer ou os dois. O mundo lá fora que se exploda, num é mesmo? Aí o calendário vira e a gente só pensa em casar, ter filhos e dar um jeito na vida. Maravilha, a vida. Sabe, eu acho que isso tudo merece um brinde, vamos, brinde comigo, o senhor tem que celebrar também. Não é todo dia que a gente descobre o milagre de estar vivo. Claro que o senhor acorda diariamente e sabe que está respirando, com o coração batendo no peito e o cérebro, bom, o cérebro, digamos, funcionando. Pelo menos em tese. Mas eu me refiro ao outro sentido de saber-se vivo. Vivo mesmo, conscientemente vivo e apto a realizar coisas incríveis. A gente poderia até mudar o mundo se quisesse, o senhor não concorda? Uma revolução, uma guerra, sei lá. Ir às ruas, reinvidicar nossos direitos. O direito de ser feliz. Não é incrível? O senhor nunca pensou em fazer nada grandioso? Entrar pra história, ser líder de alguma causa nobre? Fundar uma religião? Percebe como é extraordinário? Estar vivo. Que beleza. Vamos, tome outra comigo, nem que seja em consideração a nossa velha amizade. Por minha conta. Quantos anos já se passaram, hein? Diga aí, meu velho, quantos anos? Nossa, não dá nem pra contar, não é verdade? Uma amizade, eu diria, de uma vida inteira. E que vida! Eu sento aqui desse lado com meus problemas, o senhor aí, atrás do balcão cheio de conselhos, distribuindo a alegria etílica por todo o bar. Um pai, o senhor sem dúvida é um pai pra mim. Mais do que isso, um anjo, uma santidade, quase um deus... Vem cá, será que dá pra pendurar mais essa? É que, como eu disse, eu perdi o emprego ontem e, você sabe, a vida anda tão difícil para nós brasileiros. Os homens lá em cima ficando tudo rico e nós aqui sem um tostão. É, meu amigo, a vida é dura, o senhor nem imagina. Ô vida de cão, essa. Nunca pensei de sofrer tanto. Logo eu, um trabalhador digno, cheio de boa vontade de ser alguém. Mas num dá, sabe? A gente tenta, tenta, mas o mundo é injusto demais, o senhor não acha? Eu fico até envergonhado de vir aqui dia após dia sem ter como pagar minhas dívidas. Só fico um pouco mais tranqüilo porque o senhor me conhece e sabe que o primeiro trocado que eu conseguir é seu, num sabe? Venho correndo honrar meu compromisso com o senhor. A primeira coisa que eu faria, sem dúvida. Porque homem que é homem cumpre com suas obrigações, é ou não é? E o senhor pode ter certeza disso. É que essa vida desgraçada teima em pregar umas peças na gente. A gente se esforça, se esforça e o que ganha em troca? Nada. Nem o direito de ser feliz as pessoas têm mais nos dias de hoje. Uma vergonha. A gente luta pra sobreviver, essa é que é a verdade. Mas eu vou pagar ao senhor, óbvio. O problema é que...

Andrea Marinho
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Overdose de Nando Reis nesse último mês:

"Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as Índias, mas a terra avisto em você
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário..."
(All Star)

"Então me diga
Se você ainda gosta de mim
Por que de você eu gosto
E isso não deve ser assim tão ruim
Há quanto tempo eu conheço você
Quanto tempo eu ainda vou precisar ?
E eu dependo do que eu não entendo
Eu pretendo apenas
Que você saiba que isso é o meu amor"
(Me diga)

"Corre a lua porque longe vai?
Sobe o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade por esta noite
Porque está amanhecendo?
Peço o contrario, ver o sol se por
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for"
(Relicário)

"Os meus olhos vibram ao te ver, são dois fãs, um par
Luz nos olhos vidros pra poder, melhor te enxergar
Luz dos olhos para anoitecer, é só você se afastar
Pinta os lábios para escrever, a tua boca em mim"
(Luz dos Olhos)

E a melhor...

"Por onde andei enquanto você me procurava?
Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava?"
(Por onde andei)


postado por Andrea Marinho às 12:56 AM
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Quinta-feira, Setembro 08, 2005

Você(s).

Toda aposta pressupõe riscos. Não há certezas ou garantias. Só há mesmo uma expectativa que, por vezes, teimamos em tomar como verdade quando, na realidade, não passa de uma mera possibilidade com cinqüenta por cento de chance de se concretizar. Eu também apostei no mesmo jogo que você. Nos mesmos números, até. Eu também arrisquei meus palpites e arquivei meus receios. Quis gritar ao mundo as palavras que se perdiam na boca diante de cada um dos milhares de sorrisos seus. Quis vender todos os meus defeitos na praça e trocar por algo que te agradasse. Quis ser qualquer coisa mais que só o necessário. Pra você. Tudo de bom que eu quis e busquei sempre foi pra/por você. Aquele você que eu conheci tempos atrás. Um você mais terno, mais suave, que deixava a vida bem mais leve do que ela costuma ser. Um você que me arrancava suspiros doces e me trazia um desejo irresistível de ser melhor. Melhor do que aquilo que se aceita simplesmente, melhor ao ponto de lhe fazer querer, desejar, sonhar, amar por si só e não apenas em resposta aos meus. Aos meus sentimentos tão puros, tão certos, tão seus. Um você que saiu para comprar cigarros-jornal-ou-qualquercoisa e esqueceu de dizer que demoraria mais do que cinco minutos. Mais do que eu sabia esperar. Mais do que eu podia. Ontem eu encontrei o outro. Aquele outro você que me cumprimenta com um sorriso no canto da boca. Aquele que não mostra os dentes ao gargalhar. Aquele que quase não gargalha mais. Aquele você estranho, cheio regras tediosas para falar, comer, viver. Que prefere proparoxítonas em frases compostas quando tudo se resolveria simplesmente com um silêncio agradável. Ou um abraço. Esse você aí que esqueceu que eu adoro abraços. E que os gosto fortes, bem fortes, dos que parecem fundir dois corpos num só. Mas os nossos corpos já não se misturam há mais tempo do eu posso lembrar. Porque aquele outro você levou também a fórmula que nos fazia encaixar tão perfeitamente que o resto do mundo não conseguia se colocar entre nós dois. E agora já não há mais nós dois. Há apenas eu e você separados por incontáveis cercas, muros, arames farpados feitos de orgulho e desamor. Porque aquele você, o de antes, levou também o amor do mundo inteiro. O amor que eu dei minutos antes de ele sumir.

Andrea Marinho
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A música que não sai da cabeça esses dias:

"agora eu sei o que quero enxergar
esse colorido não devia mais me enganar
porque a cor deforma
quando a luz vem a brilhar
e assim seu olho começo a decifrar

Dai-me outra cor
Que não seja a do seu olhar
Dai-me outro amor
Que venha pra me perpetuar
Dai-me outra cor
Que não tenha o que eu quero enxergar
Dai-me uma dor
Que sirva para eu acordar
Dai-me outra cor, dai-me um amor, dai-me uma dor

Pelas esquinas que eu andei
Nenhuma delas te encontrar
Mas eu tou sempre por aqui
Quando quiser, é só chamar
Andando reto, sem destino
Vivendo sempre do passado
Não quero mais me desmentir
Eu não vou mais te procurar"


(Mombojó - Duas Cores)


postado por Andrea Marinho às 12:18 PM
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Quinta-feira, Setembro 01, 2005

Cor-de-Chumbo.

Nascera em meio ao caos. Sua mãe entrara em trabalho de parto às seis da tarde, presa no trânsito da 23 de maio. De súbito uma dor aguda. Buzinas, bolsa estoura, vendedores ambulantes, sirenes, pai sai do carro, socooorro, mais dor, gritos, celular sem bateria, mendigo amassa a cara no vidro, um trocado dona?, choro, muito choro, desespero, aaaaaaaaaaa. Veio ao mundo. Assim.

Otto. Esse era seu nome. Gostava da idéia de poder ler seu próprio nome de trás pra frente. Nunca foi propriamente um menino problema apesar de carregar nos olhos todo o ar caótico que respirou quando veio à luz. Um olhar turvo, quase cinza. Era calado tanto quanto podia ser, muito embora gritasse por dentro a ponto de sua alma ficar rouca de quando em vez. Uma espécie de rebeldia discreta. Ou pânico disfarçado de timidez.

Crescera ouvindo que as pessoas não são confiáveis. Melhor criar um poodle, quem sabe um gato. Tinha medo de gente e da polícia, apesar de nunca ter sequer quebrado o código de boa conduta da escola de padres que freqüentou. A mãe dizia que era trauma. Sofreu muito quando o pai fora preso, mas ele nem lembrava. Quatro anos de idade, talvez.

Era bonito, diziam. Ele não achava. A avó, que sempre foi atriz e sempre desempregada, vivia a falar que ele parecia um antigo namorado dela. Têm os mesmos olhos enigmáticos, ela dizia. Um tal artista de sucesso aí. Mas nunca ninguém viu. Talvez nem ela mesma, enquanto sóbria.

Gostava de estudar. Cada livro era como um refúgio, uma forma de escapar dos outros, como o era também um artifício para não se sentir tão só. Freqüentava as bibliotecas da cidade desde que aprendera a ler. Para ele, havia nelas um silêncio quase santo que se acumulava entre as linhas dos livros, às vezes em capítulos inteiros. Uma quase-paz.

Entrou para a faculdade de direito aos dezesseis. Muito infantil ainda para ter certeza do que queria para o resto da vida. Nunca tinha pensado muito a respeito disso antes de se deparar com aquela folha de inscrição distribuída na escola. O que eu quero ser? Uma pergunta difícil, ainda mais para quem sequer sabe o que é. Só sabia mesmo que queria ir embora dali. A impressão que tinha é que já havia nascido cansado do tumulto do mundo. Daquele mundo acinzentado e sujo da metrópole. A vida para ele tinha cor de chumbo. Assim como o seu peso. Chumbo.

***

Doze e vinte. Tem trocado? Tem certeza? Procura aí na bolsa. Não? Tudo bem, pega, vai. Como assim não quer moeda de um centavo? É moeda corrente nacional. E daí que faz volume? Nem tudo que faz volume é ruim. Nada não, minha senhora, no seu caso é melhor esquecer mesmo. Não, eu não estou desrespeitando a senhora, isso aqui não é igreja, não senhora. Quem mandou não ter troco? Eu só queria ajudar. Meu chefe ta de folga. A senhora não sabe ler? Sugestões e reclamações, ali ó, na caixinha. Boa tarde pra senhora também. Eiii, posso ficar com o troco, então?

Sofia não era bem o que se pode chamar de moça educada. Era meio bronca mesmo. Crescera com os seis irmãos homens num sítio a uns noventa quilômetros da capital. Tinha esse nome por insistência de um tio que era doutor advogado. Nome de gente fina, ele dizia. Aprendera a usar batom depois dos vinte anos, quando começara a estudar na cidade. Demorou a entender as regras de etiqueta feminina. Por que usar sapatos tão desconfortáveis? Por que não podia sentar a vontade, como os meninos faziam? O mundo parecia cheio de complicações desnecessárias que não faziam qualquer sentido pra ela. Convívio social que se dane.

Arrumou um emprego numa loja de antiguidades. Seu chefe, Seu Tadau, era um simpático chinês com mais idade do que os objetos que vendia. Foi com a cara de Sofia porque ela falava de um jeito engraçado, sempre bem rápido e com muitos rr's, e parecia uma boa menina, criada longe dos maus costumes da cidade. Além disso, não reclamava do baixo salário e do fato de ele não assinar carteira. Era tão mais fácil lidar com quem não teve aula de direito e cidadania no primeiro grau.

No começo Seu Tadau ficava rondando a loja, observando a menina trabalhar. Houve um tempo que ela chegou a pensar que ele era um velhinho safado, com algum distúrbio sexual. Ou seria apenas carente? Com os meses, parou com a marcação cerrada em cima da moça, mas sempre alertava antes de sair: cuidado, não queblar nada, tudo muito calo. Sofia balançava a cabeça muito séria, como quem escuta uma recomendação de pai, mas ria baixinho sempre que ele virava de costas. Tudo bem que seu sotaque não era dos mais bonitos, mas ela não parecia um etê, pensava.

Fora o nariz grande que herdara do pai, Sofia era uma mulher até bonita. Cabelos pretos passando dos ombros. Olhos expressivos, verdes como duas azeitonas. Tinha um sorriso exagerado que mostrava os dois dentes da frente levemente tortos, mas que lhe caiam bem. Desde muito nova, aprendera a tirar proveito de sua aparência. Quando passava as férias com os primos mais novos na capital, sempre voltava cheia de piões, ioiôs e sacos de bilocas. Conseguia, geralmente, tudo o que queria deles. Achava os homens todos uns tolos. Qualquer bobagem os impressionava.

Começou a namorar menos por vontade e mais para acompanhar a turminha de amigas que já estavam todas arranjadas. Conheceu Clemente na casa de uma delas, logo que se mudou para a cidade. Ele era um daqueles caras que não pegavam ninguém, um verdadeiro encosto de quem todo mundo queria se livrar depois de dois minutos de conversa. Era chamado pela turma de Clementira, dado o seu hábito de inventar histórias para parecer interessante. Chegou a dizer, certa vez, que havia visto o Dalai-Lama quando viajou com a mãe pro exterior, mas todos sabiam que ele nunca havia sequer saído do Brasil. Sofia, de verdade, nem escutava dois terços do que ele falava, de modo que suas mentiras não chegam de fato a incomodá-la.

A vida seguia morna, parecia enrugar junto com toda aquela velharia da loja. Sentia falta das cores do sítio, do cheiro de terra úmida, do ritmo desacelerado das horas passando no meio do mato. Por vezes achava que acabaria como a Tia Mazé, sem filhos, morando de favor na casa de um parente ou abandonada num abrigo para velhos. Tinha medo de morrer sozinha naquela cidade. Será que alguém notaria?

***

Otto entrou na loja com pressa. Já passava das seis e meia da noite e ainda pegaria três linhas de metrô para chegar à faculdade. Correu os olhos pelas prateleiras e se encaminhou para a seção de prata. Estava se aproximando o dia das mães e ele queria algo especial, de bom gosto. Movia-se rapidamente enquanto Sofia observava apreensiva, esperando que ele esbarrasse em qualquer coisa e derrubasse algum objeto. E aí, era uma vez seu emprego.

Pois não? Estou procurando um presente, disse Otto sem levantar a vista. De longe, imaginei que sua bisavó já estivesse morta, disse a menina divertidamente. É pra minha mãe, respondeu, dessa vez olhando para Sofia debruçada em cima do balcão. Algo delicado, bonito, talvez uma dessas peças de prata. Sei, mãe, hein? Quanto custa essa aqui? Setenta e dois. Ah, e essa? Também. Hum, e essa? Sessenta e nove e noventa, é a mais barata da seção. Bom, volto depois, estou atrasado. Espera... Você viu as peças de porcelana?

***

Otto voltou no dia seguinte. E no outro e no outro e no outro. Um mês depois chamou Sofia para assistir a uma peça de teatro que estava passando ali perto. Claro, sexta depois do expediente. Ainda era terça-feira e a semana demorou a passar. Sofia já não atendia aos telefonemas de Clementira e começava ela também a achá-lo um encosto. Clemente. Que raios de nome era aquele? Otto passou mal nos três dias subseqüentes. Nunca havia chamado nenhuma garota para sair. Normalmente só ficava com alguém quando seus amigos lhe empurravam a primeira garota encalhada que viam nas festas. Pensou em Sofia. Olhos de oliva. Seu estomago doeu mais.

Sexta-feira, oito e meia. Ela estava com um vestido preto um pouco grande demais para o seu corpo. Pegara emprestado com uma amiga, já não tinha nenhuma roupa adequada para ir ao teatro, só mesmo aquelas blusas de florzinhas que a avó costurava para ela. Soltou os cabelos quando o viu entrar. Ele, bem arrumado, calça preta, blusa de botão azul, cabelos bem penteados. Um botão de rosa na mão, meio murcho. Não tinha dinheiro para nada melhor. Ela sorriu. Ele também.

Sofia pediu licença e entrou no banheiro da loja. Queria retocar a maquiagem, disse. Mas ela só sabia passar o batom, quando muito. Tirou o excesso de cor dos lábios com um pedaço de papel higiênico. Jogou fora. Ouviu um estrondo, depois alguém bateu na porta. Já vou abrir, o que você quebrou? Silêncio. Abriu a porta, dizendo para ele não se preocupar, Seu Tadau ia entender. Foi interrompida por um revólver no meio testa. Passa tudo, moça. Mas eu não tenho nada. O caixa, abre o caixa. Sua mão tremia, procurando as chaves. Foi então que viu Otto estendido no chão. Morto, de olhos abertos. Viu o seu olhar caótico parado em direção a ela, pela última vez. Naquela hora, não sentiu mais medo de morrer. Não estaria mais sozinha, pensou. Pegou a rosa murcha jogada no chão e sentiu o cheiro da terra úmida do sítio. Voltou-se para o assaltante e, como uma súplica, pediu: me mata, por favor, me mata. Sentiu a bala atravessar-lhe, perfurando os dois lados do vestido preto. Para ela, a morte tinha cor de chumbo. Assim como o seu peso. Chumbo.


postado por Andrea Marinho às 4:47 PM
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Quarta-feira, Agosto 03, 2005

Embora.

O sol nascia um tanto preguiçoso, pintando o céu de laranja em câmera lenta, como um artista esperando a inspiração chegar para completar a obra. Eu não sabia muito bem o que esperar daquele dia que aos poucos se esboçava. Talvez chovesse à tarde, uma daquelas chuvas que vêm como um choro contido que transborda sem querer. Mas, de verdade, eu pouco me importava com o clima daquela cidade ou com a vida que existia por trás das grades de tantas janelas espremidas umas sobre as outras. A cor daquele céu não tinha os tons que os meus olhos estavam habituados a ver. E, assim como narciso, eu também achei feio tudo aquilo que não era meu. Ainda acho.

Foi assim que cheguei em São Paulo. Presa a todas as coisas que precisei deixar, mas que não me deixaram. Solta num mundo tão diferente do meu quanto o verso e o anverso de um tecido bordado. Eu não entendia como aqueles prédios pomposos e espelhados se misturavam com os camelôs da Paulista sem que ninguém se chocasse ou quisesse morrer de tanta revolta. Ou o porquê de as pessoas tratarem melhor os seus poodles do que o vizinho da porta ao lado e isso fosse, mais do que comum, normal nas ruas de Higienópolis.

O que eu não percebia, realmente, era que as coisas não precisavam ser sempre coerentes para serem perfeitas aos propósitos para quais se destinavam; cada um com seu papel, justo ou não, merecido ou não, compreendido ou não. E que o mundo não tem necessariamente que obedecer aos padrões da lógica sem que antes obedeça aos padrões da necessidade atual de cada um no comando da sua própria vida. Não me cabe julgar do que os outros precisam: se de uma vista bonita e de vizinhos simpáticos ou de um emprego mediano no centro da cidade para pagar a saúde-escola-segurança-etc do filho que acabou de nascer. A mim só competia mesmo minhas escolhas e naquele momento o que necessitava era de todo aquele concreto, feio e cinza, para fortalecer os planos que tracei antes do avião decolar a muitos quilômetros dali.

É verdade que eu não veria mais o sol nascer cor-de-rosa de uma varanda em frente ao Atlântico. Não mais encontraria a ternura do mundo inteiro exposta numa bandeja no quarto do lado, apenas esperando que fosse buscá-la com um abraço nos domingos de manhã. Nem tampouco poderia ver os sorrisos coloridos de todas as pessoas que amo de uma vez só. Faria falta, eu sabia. E me doía saber.

Agora, findas as férias e saciada em parte a minha saudade de casa, é hora de voltar. De repente, sinto tudo de novo: o medo, a rejeição, o sufoco que experimentei naquele primeiro nascer do sol desbotado e cansado das primeiras linhas. Num desespero súbito, penso em desistir de tudo, vender o que me resta, inclusive meu diploma, e investir em qualquer coisa como abrir uma pousada em Ponta Negra, vender cosméticos de revista ou prestar concurso pra um cargo burocrático de nível médio. Qualquer coisa que me permita ficar. Mas então, ato contínuo, me pergunto: ficar é o que preciso, agora?


postado por Andrea Marinho às 5:02 PM
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Segunda-feira, Agosto 01, 2005


Forte dos Reis Magos - Natal/RN =)

Minhas Férias.

Quarenta e quatro dias. Quatro é meu número preferido e minha cor é amarela como o sol da minha cidade. É engraçado como a vida muda de férias para férias. Às vezes tenho a impressão de que tudo é cíclico. Numa hora eu sou oposto, noutra eu sou igual, viajo do extremo ao meio-termo antes do nascer da lua. Mudo de opinião de cinco em cinco argumentos e meu humor varia tais quais as horas do dia.

Geralmente nas férias a gente dá folga à vida. No meu caso, ao contrário, eu vou em busca dela. Aquilo que chamo de minha vida agora eu só posso encontrar nas férias. Uma rede na varanda, lua cheia bem laranja, eu e meu velho num abraço quente. Passeio no shopping, eu visto uma roupa atrás da outra, opiniões sempre se chocando, mas a gente se entende, eu e minha mãe, como duas irmãs bem diferentes. E aí, quando chega a noite, eles vêm todos de uma vez, cada um com sua cor, cada um com um sorriso que me faz sorrir mais. Muito mais que amigos. No meio de tudo, uma surpresa boa com gosto de sorvete em casa na sexta-feira à noite.

E isso só pra confirmar que não importa o que a gente tem ou não tem nos bolsos, no rosto, no corpo; a vida se resume às pessoas com as quais a gente pode contar no fim das contas ou na mesa daquele barzinho de toda quarta-feira, contando piadas pra aliviar o peso do mundo.

Foi assim: quarenta e quatro dias, uma gargalhada gostosa e uma imensa saudade. Minhas férias.


postado por Andrea Marinho às 8:05 PM
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Terça-feira, Julho 26, 2005

Sei lá, deu vontade.

A filha da vizinha.

Nutria um ódio descomunal pela filha da vizinha. Praticamente, viu-a crescer com seus cabelos pesados presos num rabo de cavalo bem apertado. Certa vez, quando ela ainda tinha uns dez anos de idade, ajudou-a numa peça de teatro da escola. Escolheu a fantasia, passou o texto com ela, ensinou-a como fingir o choro e tranqüilizou-a antes de entrar em cena. Lembrava daquele dia como se fosse a sua própria estréia cinco ou seis anos atrás e quase podia ouvir os aplausos do público ao fim do espetáculo. Muito tempo depois, quando a menina já havia completado dezesseis anos, preparou-a para o seu primeiro encontro com aquele cara tímido que a acompanhava depois da escola. E ela estava linda, com um vestido vermelho que ganhara de presente no último natal e aquele sorriso, ah, aquele sorriso grande que a gente só vê duas ou três vezes na vida. Um sorriso de felicidade absoluta e inabalável. Nesse dia, mal pôde dormir de tanta ansiedade por saber os detalhes, sentia-se como uma adolescente de novo, vivendo cada momento juvenil através da menina da porta do lado. Há uns dois anos atrás, convidou-a para jantar em sua casa. Preparou uma massa saborosa e abriu o seu melhor vinho. Organizou tudo metodicamente do jeito que a moça gostava. Era uma noite fria no início do inverno e a solidão já havia se instalado há meses. Precisava de companhia, alguém que pudesse mostrar que não era tão só no mundo quanto ás vezes parecia. E ela veio pontualmente na hora marcada. Trouxe um botão de rosa amarela e abraçou-a com força, como quem agradece por algo importante. E beberam o vinho rapidamente. Sede, incontrolável. Outras três, quatro ou cinco garrafas se seguiram até que, de repente, viram-se esparramadas no chão, gritando confidências e revelando segredos sórdidos que jamais ousaram sussurrar antes. Culpa do vinho, diziam. E riam alto e se abraçavam e cantarolavam divertidamente. Sentiu-se feliz como há anos não o sabia ser. Foi então que, de súbito, ela percebeu. Ficou confusa, assustou-se, quis morrer. Ódio. Era tudo o que sentia. Um ódio que vinha de algum lugar desconhecido dentro de si. Um lugar escuro como os cabelos dela, frio como o inverno de todas as madrugadas que vieram em seguida. Tentou se conter, disfarçar aquela descoberta brusca e irreversível, mas era tarde. Havia qualquer coisa de horror nos olhos dela, um medo convicto embora recente. Fez menção de levantar-se, mas ela apressou-se e correu sala afora como um bicho em perigo, sumindo em pouco mais de quatro ou cinco segundos. Agora era certo, odiava-a. Podia sentir a aversão correr em suas veias, permeando todo o seu corpo, sua consciência, seus sentidos. Tentou lembrar de quando a ensinou como se dançava valsa dias antes do baile de formatura dela, na busca desesperada por um resquício de ternura. Mas já não havia mais nada além daquele asco encruado em sua pele, daquela repugnância pura e absoluta. Era tudo, o resto apagou-se como grafite em papel velho. Arrumou a sala, recolheu os pratos, as taças, colocou as almofadas no lugar. Depois que a casa estava em ordem novamente, sentou-se bem perto à janela e começou a traçar seu plano, matemática e metodicamente. E durante o resto de sua vida, ocupou-se em elaborar o projeto perfeito, premeditou cada detalhe, cada pequena imprevisibilidade. Seguia-a na rua, vigiava-a quando saia ou chegava em casa. Quase podia ter certeza dos pensamentos dela enquanto esperava o ônibus das sete. Era capaz de ouvir os passos dela no apartamento ao lado quando a insônia se instalava no meio da noite. Vivia assim, alimentada e consumida por aquele ódio devastador e irrenunciável. Acordava para planejar o ataque. E, exausta, deitava-se cedo. Precisava descansar para matá-la no dia seguinte.

Andrea Marinho
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"A opressão do anoitecer ocupou o mundo"
Gabriel García Márquez - em Do Amor e outros Demônios


postado por Andrea Marinho às 5:55 PM
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Sexta-feira, Julho 15, 2005

Bom resto de vida.

Eu queria poder escrever-te algo bem bonito. Como aqueles versos do Neruda que jogaste por baixo da porta na nossa última briga. Ou, quem sabe, compor uma música doce para tocares no violão quando a saudade batesse mais forte, naqueles domingos sem mim.

Eu queria poder te dar um presente especial. Daqueles bem exagerados que se compra de impulso e nem se importa de estourar o limite do cartão. E dizer-te olho-no-olho que o mundo todo é muito pouco para compensar o meu sorriso fácil quando o teu sorriso largo atravessa a sala.

Eu queria poder perder horas, dias, meses tentando explicar-te que naquele dia em que sumi da tua vida eu não queria fazer-te de bobo e que, na real, não foi charme, foi só medo. Um medo infantil e sem sentido, embora de um todo inevitável diante das outras vezes em que eu me afoguei em teus olhos.

Eu queria, de verdade, falar-te frases grandes, cheias de para-sempre e nunca-mais e encher-te de promessas e juras e planos e sonhos e beijos e sexo. E depois fazer-te acreditar em cada letra clichê dos meus eu-te-amo-s.

Mas acontece que eu já não posso nada disso. E não posso pelo simples fato de não saber encenar tão bem quanto tu sabes. É que o meu cinismo, diferente do teu, ainda não evoluiu ao ponto de proporcionar-te todas essas bobagens de um amor que eu deixei de sentir há mais tempo do que consigo lembrar. Somos os dois uma farsa, como tudo o mais que é nosso. Tu hipocrisia, eu conveniência. E vice-versa.
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A segunda mais linda poesia de Neruda...

INTEGRAÇÕES

"Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido".


Pablo Neruda.


postado por Andrea Marinho às 10:14 PM
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Terça-feira, Junho 28, 2005

Manhã de Junho

Um dia desses, eu te vi passar na rua, sem pressa, meio perdido. Pensei que poderia te desejar um bom dia e, quem sabe, tu me perguntarias para que lado mesmo ficava a minha casa. Um café no fim da tarde, talvez. Ou um filme francês no fim de semana com duas garrafas de vinho seco. Corri os olhos, desviando os carros, enquanto te via dobrar a esquina. Eu poderia ter te dito que àquela hora a banca do jornal ainda não estava aberta, que as frutas do mercado não estavam boas, que a chuva chegaria logo em breve. Tua resposta poderia ter sido um sorriso ameno, daqueles teus que parecem um abraço quente no inverno. Ou poderia ter sido o início de uma conversa divertida e preguiçosa no sofá da tua casa, como costumávamos ser. Parei um pouco no meio da quadra, cumprimentei dois ou três rostos conhecidos e subi no degrau da padaria pra te esperar sumir. Eu poderia ter corrido um pouco, apressado o passo, batido em tuas costas e te dito que já terminei de ler aquele livro do Joyce que tu esqueceste no criado-mudo e que qualquer sábado desses podias buscá-lo. Tu, certamente, ririas da minha mania de ler tudo o que encontro e perguntarias de quantos Ulisses eu precisaria para matar minha insônia. Eu, provavelmente, te falaria que meu estômago continua temperamental e que sente falta dos teus risotos aos domingos. Fiquei na ponta dos pés e então vi teu corpo se misturar a uma multidão de estranhos e se perder ao longe quando minha visão confusa já não te podia alcançar mais. Um dia desses, eu te vi na rua e te deixei passar.


postado por Andrea Marinho às 3:12 PM
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Segunda-feira, Junho 27, 2005

Dica de Verão em Pleno Inverno

Eu pensei em escrever qualquer coisa para falar do livro Verão Veraneio - Crônicas de Uma Cidade Ensolarada do meu amigo Carlos Fialho. Eu poderia falar que é leitura obrigatória pra roubar boas gargalhadas ou que todas as tiradas são de ótimo humor. Seria verdade e seria pouco. Mas já que o cara é publicitário, ele mesmo vende bem o peixe. Adiante, os anúncios:





Quem já leu, leia de novo. Quem não leu, leia logo.
Pedidos: editora@jovensescribas.com.br


postado por Andrea Marinho às 11:24 PM
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Segunda-feira, Junho 06, 2005

Foi.

E quanta coisa mudou desde aquela última vez. Sonhos reconstruídos em outras bases. Planos redesenhados em cima de outros rascunhos. O cenário é tão diferente quanto o meu modo de amar e eu já nem sei onde foi que escondi meus antigos ideais revolucionários. Tudo meu é o verso de uma página rasurada por você. Sou apenas reação involuntária e proporcional à tempestade que você trouxe ao passar.

O tempo às vezes é como um afago na nuca. Uma forma singela de fazer dormir um amor ferido depois de uma insônia acumulada por anos. Eu sempre achei que ia lhe esquecer num estalar de dedos. Com dia e hora certa, sem atraso. E demorei demais para perceber que o mundo não se transforma durante a madrugada. O dia que amanhece sob vigília traz mudanças sutis demais para serem perceptíveis de pronto.

Eu precisei aprender a ter paciência quando a urgência das minhas dores aguçava uma ansiedade insaciável. Até que eu cansei de tanto ansiar pelo seu socorro que nunca veio e comecei a cuidar de mim. E mudei. Mudei muito. Tanto que às vezes me espanto com a pessoa em que me tornei. Eu nunca acreditei que um dia a racionalidade fosse me fazer feliz, como uma surpresa planejada e calculada.

Eis que estou aqui a pensar em você como quem reza sobre um túmulo sem flores. Sinto saudade, sim. Uma saudade que parou de crescer quando eu parei de alimentá-la. Uma saudade estática, petrificada e imutável com a qual aprendi a conviver em trégua. E a paz pesa sobre meus ombros depois de tantas perdas e se impõe depois de uma guerra há tanto tempo falida.


postado por Andrea Marinho às 7:09 PM
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Sexta-feira, Junho 03, 2005



Para Dig.

É difícil falar dele. Uma pessoa que reúne em si tantos adjetivos que meu vocabulário se esgota só em pensar nele por cinco minutos. Ele que aparentemente não tinha nada em comum comigo, veio assim de repente me mostrar que o mundo é muito maior do que aquilo que a gente vê à nossa volta. Que tudo pode ser imenso, assim como o sentimento que liga duas pessoas. Eu costumo dizer que ele entende de tudo um muito. De literatura a música, de política a entretenimento. Ele sabe tudo, ou quase isso. E me ensina milhões de coisas sem que eu precise pedir. Ele me ouve, sempre. E já me ouviu tanto e por tantas vezes que há alguns momentos em que eu nem preciso falar para que ele me entenda. Talvez não haja mesmo palavras à altura de explicar certas coisas. Eu sei que eu não encontraria uma forma honesta de agradecer pelas vezes em que ele me viu chorar por horas e depois me abraçou e disse vamos tomar um sorvete, depois isso passa. E passou. Ao som de um rock´n´roll macio dos cds que ele gravava pra mim (baladinhas para dea), ele me fez rir alto por umas bobagens quaisquer. Nossas bobagens. Ele e seu humor ácido, eu e meu humor fácil. Devo-lhe muito mais do que posso pagar. Porque não há fortuna que compense a amizade que me levantou quando o chão se rachava sob os meus pés. Não há nada que compre a felicidade de tê-lo por perto, mesmo a quilômetros de distância. Se eu pudesse escolher um presente para ele hoje, eu daria de volta o calor e o amor que ele me dedicou desinteressadamente e sem esforço. Eu daria toda a alegria que ele me traz.

Feliz aniversário, meu maior amigo.


postado por Andrea Marinho às 8:01 PM
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Sábado, Maio 28, 2005

Lei de Murphy

Agora sim, acho que está tudo aí. Pensei logo após o lacre da última caixa. Memorizei rapidamente as coisas essenciais, como aquele livro de Neruda e o cd de Coldplay pra eu curtir bem acompanhada a solidão nas noites de domingo. O vestido rosa choque surrado (agora rosa bem claro) que uso pra dormir e que meu irmão classifica como "molambo", a sandália rasteira que comprei por uma pechincha numa lojinha de artesanato em Ponta Negra, ah, isso eu não posso esquecer: minha preciosa coleção de calcinhas de algodão adquiridas na feira de São José, peças de valor imensurável. Ok, tudo empacotado, pode levar. Será que eu coloquei aquele moletom azul-marinho do mickey ? Não lembro. E a caixa de charutos de papai que uso pra guardar as fotos dos meus ex-namorados? Tem que estar aí dentro, porque ex é um troço que tem que ser sempre lembrado para que a gente veja o quanto tínhamos mau-gosto no passado e agora estamos no caminho certo. Droga! Não me lembro de ter visto o Theodorico. Moço, espera, eu acho que esqueci o Theodorico, você viu o Theodorico em alguma caixa? Quem? O Theodorico, meu gato. Não, senhorita, animais não são permitidos. Ah, não, eu não posso deixar o Theodorico. E eu abri ferozmente todas as caixas na ânsia quase materna pelo filho perdido. Não está nessa, nem nessa, nem nessa, não disse, moço?,Theeeo... onde ele se enfiou? Theeeo! Senhori... Ufa, achei. Ah, de pelúcia é permitido, senhorita. Será que o senhor poderia me ajudar a lacrar de novo? Já é a quarta vez, senhorita, é melhor fazer uma lista e conferir se está tudo aí mesmo antes de fechar. Não, não precisa, moço, juro que foi a última vez. E fechamos tudo pela antepenúltima vez, mas é claro que me lembrei de mais umas coisinhas 2 horas depois, quando o simpático senhor levou as caixas. Lá se foi o caminhão descendo rua abaixo e eu, da varanda, quase não podia suportar a dor de me separar, ainda que por alguns dias, das coisas mais valorosas que tenho, depois, óbvio, da meia-dúzia de pessoas que amo. Pensei, pensei, pensei e de tanto pensar a gente acaba mesmo esbarrando com alguma idéia bem absurda que faz arrepiar a espinha. Oi, seu Luís, o senhor não deve lembrar de mim, mas... Ah, o senhor lembra? Isso, fui eu que telefonei três vezes ontem. Como? Seis? Isso, seis vezes. Sabe o que é?, eu queria saber qual a probabilidade de o caminhão ser assaltado na estrada. Sei, muito remota, né? Mas trabalhando com essa muito remota possibilidade, o senhor acha que existe alguma forma de reforçar a segurança? Sei lá de que jeito, tipo, não tem nenhum policial que acompanha não? Eu sei que São Paulo é longe, mas..., é que minha vida inteira vai dentro daquele caminhão, o senhor entende, né? Ah, não entende? Desculpa, não sabia que já passava das onze da noite. Calma, seu Luís, não to desconfiando da qualidade do serviço da sua empresa, de forma alguma. Eu sei, o senhor já me explicou: nunca aconteceu nada com as mercadorias dos seus clientes. Tudo bem, seu Luís, desculpa aí o incômodo, eu sou um pouco nervosa e... tum tum tum. Acho que ele tava mal-humorado aquela noite, ao menos fiquei mais tranqüila depois que seu Luís disse pela 16ª vez que o negócio era seguro. Os dias seguintes foram meio desgastantes. Vocês sabem, eu me estresso muito com essa coisa toda de mudança: arrumar mala, desarrumar mala, lembrar de todos os detalhes, esquecer que já lembrei de todos os detalhes dez minutos antes, enfim... uma trabalheira só. No 5º dia, depois que o senhor simpático saiu lá do meu antigo apê, meu telefone tocou. Oi seu Luís, eu já ia mesmo ligar pro senhor, fiquei meio constrangida por ter lhe aperreado tanto, afinal, estou certa que o senhor tratou de tudo de modo muito profissional e com todo o cuidado, aliás, não sei como pude pensar que uma empresa tão séria como a sua poderia me causar algum problema, inclusive eu... Uma notícia? É para falar que o caminhão pode chegar a qualquer hora né? Não exatamente? Que pequeno problema, seu Luís? (Eu já sem respirar) Mas o senhor me prometeu que não iria acontecer nada e que não haveria assalto e que era tudo muito seguro e que em uma semana ou menos eu receberia as caixas em mãos e que... Ah, não foi assalto? Que susto, seu Luís, assim o senhor me mata. Coooommmmooo??? Nesse instante, seu Luís, muito gentil, me explicou delicadamente que o caminhão não fora assaltado, mas apenas tinha tombado na estrada e, por um pouco de azar, caído num riacho. Depois desse dia, nunca mais ouvi falar de seu Luís, acho que ele anda me evitando ultimamente. Num é que aquele Murphy era mesmo um filho da puta?

Obs.: Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.


postado por Andrea Marinho às 10:03 PM
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Segunda-feira, Maio 23, 2005


Eu contigo

Eu rio contigo
Eu mar contigo
Eu lagoa contigo
Eu enseada contigo

Eu chuva contigo
Eu ventania contigo
Eu furacão contigo
Eu tempestade contigo

Eu orvalho contigo
Eu sereno contigo
Eu calmaria contigo
Eu crepúsculo contigo

Eu dia contigo
Eu tarde contigo
Eu noite contigo
Eu só sonho contigo.


Airton Minchoni
e Andrea Marinho


postado por Andrea Marinho às 10:31 PM
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Sábado, Maio 21, 2005

Soneca.

Trimtrimtrim. 7:00h. Ainda num estado de semi-inconsciência tateio o criado-mudo na busca por aquele objeto histérico e que insiste em se afastar sozinho por causa do vibra-call. Instintivamente, aperto a função soneca. Essa é a pior-melhor invenção do mundo tecnológico moderno. Dez minutos a mais, assim de brinde, pra o dia nascer mais feliz. Bom demais. Mas eu sinto culpa. É incrível como dormir me faz sentir culpada. O mundo acontecendo lá fora, 328 coisas diferentes para resolver nessa manhã e meu corpo quer que tudo se exploda. E se eu telefonasse para o escritório? Posso ter adoecido de ontem para cá, não posso? Gripe se pega o ano inteiro. Todo mundo tem o direito de gripar uma vez na vida, principalmente se for numa sexta-feita pós-feriado. Mas nesse caso seria muita coincidência ficar doente no dia que as pessoas mais inventam que estão doentes. Não vai colar. Já sei, minha tia-avó morreu. Ótima desculpa, ninguém conhece minha tia-avó mesmo. Aliás, matar um morto não é crime, é? Bem que eu podia ter estudado melhor direito penal. Mas tenho certeza, não é crime, se for eu ligo hoje mesmo pro congresso nacional pra dizer que o Código Penal do Brasil é estúpido. Será que os parlamentares têm algum tipo de ouvidoria? Deveria, definitivamente. E se eu dissesse que um telefonema anônimo dizendo que tinha uma bomba no escritório? Além do que, não precisava existir bomba nenhuma, afinal para que servem os avisos de bomba se não para serem alertas falsos e deixar todo mundo puto da vida? Ah não, brincar com esse negocio de bomba é quase desumano levando em consideração tudo o que acontece lá no Oriente Médio, né? E depois, por que diabos iriam ligar para mim, reles funcionária-do-mais-baixo-escalão, para avisar de uma bomba e não para a toda-poderosa dona do escritório? Puuff... eu penso cada besteira. Hum... que tal um cólica menstrual daquelas de deixar a pessoa acamada? Ai, já gastei essa desculpa mês passado. Vamos, onde está a minha criatividade? Nossa, eu sou incompetente até para faltar ao trabalho. Ai, como tá quente hoje, será que vai chover? Odeio chuva, a gente tem que carregar aquela sombrinha pra um lado e pro outro, fora que é esteticamente horrível. E quando a barra da calça fica molhada e a areia gruda no sapato fazendo aquele barulhinho terrível. Putz, chega me dá arrepio. Não deveria chover nunca. Mas também tem o problema da seca, os pobres agricultores que... Tritritrimtrim. Despertador idiota, não precisa gritar, eu já perdi o sono. Todo dia é a mesma coisa, gasto sempre meus dez minutinhos extras pensando essas porcarias.


postado por Andrea Marinho às 11:59 AM
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Segunda-feira, Maio 16, 2005

Sobre saudades, pregos salientes e copos de cachaça.

Mudanças têm um quê de claustrofobia, de vida empacotada em caixas de papelão velho. Tudo se mistura num caos de livros, roupas, fotografias, sonhos que se comprimem uns sobre os outros na ânsia por um pouco da importância roubada ou adquirida pelos anos.

Pior que isso só aquela dor aguda no peito quando a gente vai jogando fora noventa por cento das futilidades acumuladas nos últimos cinco anos. É quase como um assassinato serial de memórias. Depois, a gente sepulta tudo num velório coletivo enquanto acompanha cheia de pesar o trágico fim de todos aqueles papéis antigos que registraram tantas dores e amores e insônias. Junto deles morre também a coleção de copinhos de cachaça adquirida durante as inesquecíveis viagens daquela época que não volta. Aliás, quase nada nessa vida volta e é por isso que a gente se esforça tanto para imortalizar os momentos em matéria: retratos, bilhetes, presentes, bugigangas de todas as espécies.

Olhei as prateleiras vazias, estantes marcadas pelas minhas marcas. Aquele lugar tão meu que eu deixava para trás a contragosto, como um namoro mal acabado. Pequenos detalhes que eu já sabia de cor, como aquele prego saliente da cama que precisou arrancar mil vezes um pedaço da minha pele pra mostrar que existia. Ou aquele rangido da porta da frente que denunciava ao resto da família a hora que eu chegava em casa com os sapatos na mão aos sábados de madrugada.

Agora tudo se resumia a uma dúzia de caixas amarronzadas acorrentadas por fita adesiva. A sinopse de um passado recente demais para ser esquecido ou antigo demais para ser arrancado da noite pro dia. Um passado que eu carregaria para um mundo novo, onde o futuro que dita as leis. Memórias que viveriam como um rei deposto, sem trono, mas ainda cheio de uma majestade intransferível e com toda a sua importância de protagonista que por acaso virou coadjuvante.

Ali, diante das minhas lembranças embrulhadas, eu já não sabia mensurar quanto de mim já havia se perdido no caminho e o quanto eu nunca pude jogar fora por puro capricho ou pelo afeto injustificado que teima em existir apesar do tempo. Há coisas que, por mais que se tente desfazer, a gente carrega do lado de dentro. E essas não cabem em caixas, tampouco em sacos de lixo.


postado por Andrea Marinho às 11:00 PM
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Sexta-feira, Maio 06, 2005

Tinto

Hoje eu só queria uma taça de vinho tinto e sua companhia por trinta minutos. Não, eu não queria que você ficasse mais. Não pretendo gastar todo o meu amor assim tão rápido. Prefiro conservá-lo, consumi-lo aos poucos, como aquele gole de vinho que demora na boca antes de esquentar a garganta. E depois que você partisse eu queria apenas uma cama morna e grande, bem grande, para poder caber todo a minha saudade cultivada propositadamente. E eu queria sonhos, muitos deles, de todas as cores e tamanhos e formas e cheiros. Nada de sono, eu não queria sono. O sono interrompe a consciência do que lhe acontece e eu não quero isso. Porque eu gosto de saber cada detalhe de você a todo instante e senti-lo vivo em cada palpitação do meu peito que é seu e respirar as sobras da sua presença que foram esquecidas na sala, na taça, no ar. E de manhã eu só queria saber que a adega ainda está bem cheia para depois.


postado por Andrea Marinho às 9:55 PM
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Quarta-feira, Maio 04, 2005

Cadernos Antigos.

Eu adoro vasculhar cadernos antigos. Sempre acabo encontrando dois ou três textos que comecei a desenvolver e abandonei no meio. Aliás, essa minha prática de acumular coisas inacabadas quase me rendeu uma crônica certa vez, mas, por ironia ou não, acabei deixando-a de lado depois do segundo parágrafo.

Voltando para os cadernos, dia desses eu encontrei uma frase esmagada num cantinho de folha escrita durante uma aula interessantíssima (dedos cruzados) de direito ambiental (com o devido respeito ao Green Peace e demais ONGs naturebas, vamos combinar que ninguém merece a ladainha "a la pastores evangélicos" de que o desenvolvimento sustentável é a salvação do mundo moderno ou o papo em tom altamente terrorista sobre o esgotamento das reservas de água no planeta)*.

Bem, como eu ia dizendo (desculpem-me, hoje eu estou mais dispersa que o habitual), encontrei a tal frase lá esquecida em letras bem pequenas, como quem quer passar despercebida. Eu, honestamente, não sei o que me havia na cabeça ao escrevê-la, na verdade eu nem lembrava de tê-la escrito um dia. Mas eis que ela me aparece assim do nada e me cai como uma luva. A impressão que eu tive era que, sem saber, eu a havia escrito há tempos atrás para ser lida exatamente naquele dia, como se fosse um recado deixado de um eu-passado para um eu-futuro. A frase era simples, direta, sem rodeios. Sabe a sensação de levar um soco sem esperar daquela pessoa tímida e desengonçada que nunca sequer olhou duas vezes pra você? Pois foi exatamente isso, um soco inesperado e preciso, bem no meio do estômago.

"A confiança excessiva em um dos envolvidos prejudica o julgamente por vício de parcialidade". Parece lição de Direito, né? E é, mais precisamente de Teoria Geral do Processo. Mas eu paguei TGP no segundo ano de faculdade e aquele caderno era do quinto. O que diabos aquela frase fazia solta ali? Sinceramente, não sei. Mais sinceramente ainda, não me interessa. O fato é que ela refletia exatamente a situação pessoal que estava passando e que até então eu não havia sistematizado em um pensamento lógico.

Analisando detidamente a mensagem, tratava-se de uma coisa absurdamente lógica e sem nenhuma demonstração de inteligência privilegiada. Ora,se eu confio demais em uma das partes, eu não investigo o fato como deveria; se eu não investigo o fato como deveria, prejudico o conjunto probatório e, por consequência direta, a busca da verdade é mitigada; se a busca da verdade é mitigada, meu julgamento é viciado. Tá bom, o esquema penso-logo-existo não é bem onde eu quero chegar com esse texto, mas aquelas palavras, aparenemente despretensiosas, escondiam uma obviedade que eu não vinha conseguindo enxergar fora do contexto eu-também-leio-o-código-de-processo. É que às vezes é difícil desenvolver a lição de casa sem esquecer que aquilo também pode servir como lição de vida. Vai saber o que eu deixei de aprender nas aulas de direito ambiental...

Andrea Marinho

*Marguinha vai puxar minha orelha por esse comentário mal-criado.
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"A saudade é como um dia de domingo, exatamente às 17h30m".
(Frase extraída do folder de um exposição do fotógrafo Roberto Setton, sob o título Domingo, que está sendo realizada na Pinacoteca de São Paulo. Muito boa, por sinal).


postado por Andrea Marinho às 4:19 PM
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Segunda-feira, Maio 02, 2005


Enquanto isso, em São Paulo...

Eu precisava fugir. No calor escaldante de tuas praias, meu coração ardia em brasas. E o vento que varria violentamente tuas areias alvas não conseguia apagar-me o fogo, ao contrário, aguçava-o, fazendo subir a chama até a altura do meu juízo já prejudicado. E eu derretia um pouco mais a cada manhã de sol.

Eu precisava fugir para qualquer lugar que fosse maior que os meus sonhos e que, por isso, pudesse acolhê-los. E cá estou nessa terra de lobos, onde todos se esbarram e ninguém se vê. Numa cidade em que o sol não brilha e o céu não faz a mínima questão de ser azul. Onde os bons-dias vagam sem resposta e o concreto tenta em furioso fracasso substituir as ondas do mar.

E nessa terra que tem tantas faces, que muda de identidade a cada dobrar de esquina, sempre se acha espaço para os loucos e sãos que se misturam facilmente. E pretos e brancos e amarelos e vermelhos. Raças e tribos numa mesma casa sem dono. Aqui se encontra quase tudo, de lojas especializadas em furos de bolas de boliche a pessoas que vendem até a alma nas praças do centro da cidade. Quase tudo.

Às vezes sinto como se tivesse sofrido um choque térmico. Antes eu fervia num verão de 40 graus, agora a temperatura parece estar em queda livre. Há dias em que o frio congela tudo dentro e fora de mim. E eu sinto falta das pessoas e do mundo que eu precisava abandonar para entender. Dos abraços quentes e dos sorrisos fáceis. Da tonalidade turquesa que só tuas águas têm, dos teus canteiros floridos, das tantas cores fortes de tuas paisagens.

Longe de ti, minha terra potiguar, quase tudo é quase nada e quase nada é tudo o que eu tenho de apoio nesse inverno disfarçado de outono. Mas eu não sabia, sequer desconfiava, que muita coisa ainda pode caber dentro da palavra quase ou na mudança nem sempre sutil de um grau para o outro do termômetro.


postado por Andrea Marinho às 4:43 PM
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Sexta-feira, Abril 08, 2005

Cárcere

Ta bom, eu sei que eu não sou nenhum exemplo de transparência e que muitas vezes eu pareço tanto escorregadia quanto indiferente. Mas a verdade é que eu não sei muito bem o que fazer com essa meia dúzia de sentimentos que se espalha pelo meu corpo cada vez que você avança porta a dentro e tem horas que, querendo recuperar a naturalidade que sua presença me rouba, eu acabo mesmo pondo os pés pelas mãos e estrago o dia todo num minuto.

Acho que eu perdi de vez o jeito, sei lá. Ou talvez eu tenha cansado dessa coisa toda de conquista, um tal joguinho de azar em que se promete um mundo inteiro e a única coisa que se cumpre é quase sempre uma guerra de egos hipertrofiados e cheios de uma vaidade estúpida. Uma guerra na qual o amor é arma e o orgulho escudo.

Tudo bem, eu concordo que você não tem que pagar pela coleção de desilusões que acumulei ao longo da vida e até acho que a doçura do seu sorriso merecia um pouco mais de credibilidade por parte desse meu coração desconfiado. Mas é que às vezes é difícil controlar esse medo que me invade de súbito quando percebo como seria fácil, senão inevitável, derreter-se pelo seu jeito de olhar de baixo para cima, como quem pede licença para entrar dentro da gente. E aí, em reação, eu me afasto porque não conheço outra forma de mitigar essa vulnerabilidade que cega e assusta e que abre todas as portas da alma sem qualquer critério de seletividade.

O fato é que eu me tornei uma perfeita covarde, daquelas que se esconde por trás de mil grades para fingir que é livre. Por isso, tudo o que lhe peço é um pouco mais de paciência e até mesmo persistência para me ajudar a destravar os cadeados. De alguma forma, eu sei que você tem as chaves.


postado por Andrea Marinho às 10:36 AM
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Sábado, Março 26, 2005


Etílica

Três doses e um coração partido. Perco os sentidos enquanto vejo o amor se afogar num copo de vodka. Você me entorpece.


postado por Andrea Marinho às 6:06 PM
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Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

Duplicata

Eu queria viver duas vidas.
Para numa ser a brisa matina
Noutra, tempestade assassina

Eu queria viver duas vidas.
Num dia ser confusão: ferida
Noutro ser solução: erguida

E eu, em dobro desconhecida
Velejaria em suave rotina
Naufragaria em fúria repentina

Por seus olhos, duplamente despida.


postado por Andrea Marinho às 4:57 PM
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Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

Olhar Castanho

Perco-me em meio ao concreto e às cores opacas dessa cidade indiferente. Olho em volta e vejo um mundo inteiro de todo mundo e de ninguém. Sigo pelas calçadas maltratadas por tantos pés apressados e acabo confundindo as horas sem sentir a noite chegar em claro, até que o sopro frio vem me avisar que já passou das sete e o dia se foi.

Procuro seus olhos para me aquecer. Lá estão eles: fixados nos meus, apenas esperando o calor da correspondência quase certa. E nossos corpos ansiosos se alimentam da clandestinidade do próximo toque, rápido e cheio de uma culpa doce quase beirando a inocência. E eu, calada, confesso tudo e mais, sempre um pouco mais em cada olhar cruzado.

O que nos resta: um novo adeus, nova saudade do que ficou por viver. Na bagagem levo os traços do seu rosto, seu gosto, seu hálito, seu abraço forte. E no peito, uma esperança tímida como o seu olhar castanho.

Explico, cautelosa, ao meu coração que não tenha pressa e nem se adiante, destemido, em se entregar. No abismo dos sentimentos não se deve pular sozinho. Aconselhável é saltar de mãos dadas.


postado por Andrea Marinho às 9:52 AM
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Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

Do not disturb!

Você que sempre vem em tempestade, faz o favor de não aparecer nem tão cedo. Na calmaria das horas de hoje, eu não sei se suporto mais uma dose da sua ira. Pega essa sua euforia sádica e me abandona logo de uma vez, sem adeus, sem mais delongas ou porquês. E não esqueça de levar também todo o barulho das suas mentiras histéricas e essa sua gargalhada irritante e debochada. Ponha na mala cada plano desfeito, cada promessa quebrada, cada sonho arranhado e vai. Suma clandestinamente de madrugada para não me acordar e não me tentar a lhe pedir para que fique. Fecha essa porta que vive sempre batendo pelas suas ventanias disfarçadas de suspiros ao pé do ouvido. Aproveita e esquece o caminho de volta porque eu não vou mais lhe receber por aqui, de resposta a qualquer chamado receberá tão-só a indiferença da minha descrença e da minha exercitada paciência. Por isso, guarde essa sua conversa fiada e vá bater em outro coração desavisado. O meu tirou férias do amor. Por tempo indeterminado.


postado por Andrea Marinho às 2:40 PM
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Terça-feira, Janeiro 11, 2005

Hoje é a minha colação de grau. Um daqueles dias que serão lembrados por toda a vida. Escrevi um discurso para concorrer à oradora da turma, mas acabei desistindo para discursar na aula da saudade (o público é bem menor). Não aproveitei aquele primeiro discurso, então resolvi postá-lo para que tenha algum destino.


DISCURSO DE FIM DE CURSO

"Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado... Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo... É na mudança que as coisas acham repouso...". O filósofo Heráclito não poderia ter sido mais feliz na sua observação acerca das mudanças na vida do ser humano.

No decorrer dos últimos 05 (cinco) anos, cada um de nós adquiriu uma nova visão do mundo, e em cada coração afloraram novas esperanças e novos ideais. Como diria Drummond, "aqui conheci novas palavras e tornei outras tantas mais belas".

No fim dessa árdua jornada, mas nem por isso menos esplêndida, deparamo-nos com sentimentos contraditórios. De um lado, a sensação gratificante e pacífica de dever cumprido; D'outro, o peso da responsabilidade que ora assumimos como profissionais de uma área tão importante para uma nação como o Direito.

Neste momento, deixa-se para trás o convívio diário com nossos colegas em sala de aula - que, mais do que alunos, foram também professores de valiosas lições de vida - e deles levamos tanto uma sólida amizade, como uma imensa saudade.

Deixa-se para trás, também, a condição formal de aprendizes de tantos mestres - que derramaram sobre nós a bênção do conhecimento e da experiência - e deles levamos os ensinamentos e a imensurável gratidão por cada palavra de sabedoria. Conscientes de que permaneceremos pupilos de muitos no desenrolar da carreira jurídica que se inicia.

Hoje já integramos o seleto corpo da chamada "elite intelectual", num país onde a educação é considerada privilégio de poucos. Somos parte de um grupo distinto e portadores de um dever, mais do que profissional, cívico.

Estou certa de que haverá momentos em que a descrença e - porque não dizê-lo - o desgosto diante das falhas do sistema, nos fará desejar desistir da causa que abraçamos.

Mas que sejamos fortes, perseverantes e, principalmente, fiéis aos princípios que defendemos, para não nos deixarmos contaminar pela inércia dos indiferentes. Assim como o Apóstolo São Paulo, combatamos o bom combate.

Que saibamos conservar nossas crenças, esculpidas pela ânsia de justiça. Que saibamos conservar os ideais que nos levaram a optar pela cátedra que ora concluímos. E que saibamos conservar, ainda, as normas de honestidade que devem nortear qualquer operador do Direito na busca incessante pelo bem comum.

Peço vênia aos senhores para citar um conto judaico, cuja mensagem há de ser de grande valia para nós bacharelandos e para os demais presentes.

"Certa vez, um valente soldado que havia conquistado inúmeras vitórias foi gravemente ferido. Atordoado de dor, pediu ao seu companheiro de front que lhe tirasse a vida, a fim de cessar seu sofrimento. No entanto, mesmo sensibilizado pela agonia do ferido, pediu-lhe desculpas e disse-lhe ser incapaz de tirar a vida de tão nobre amigo. O soldado contuso recorreu, então, a todos os seus superiores, ao que sem exceção, se negaram a cometer tal ato, mesmo sabendo da insuportável dor que o afligia. Até que o seu pedido chegou à apreciação do Rei através de uma carta. O Rei caiu em silêncio profundo e traçou algumas linhas num pequeno bilhete. Ao receber a resposta do monarca, o soldado, quase sem forças, levantou-se, empunhou sua arma e lutou bravamente até a morte. Antes de ser levado a sepultamento, seus amigos encontraram o bilhete escrito pelo Rei, cujas palavras diziam tão somente: 'Soldado ferido, o Rei conta com você'."

É a lição de força e coragem que devemos tirar destas linhas. Pois mesmo feridos e pacientes de dor, não podemos esquecer jamais que existe um Rei, que conta conosco. Um Rei que assume a forma de amigos, familiares e da imensa massa de pessoas sem o devido acesso à Justiça.

Que esse Rei possa nos servir de estímulo e fomento, mostrando-nos que, por mais ínfimo que pareça o esforço de um soldado ferido, a sua baixa diminui todo o exército, pois a vitória depende igualmente dele.

Amanhã, onde quer que estejamos, no caminho ditado por nossas consciências, seja na Advocacia, na Magistratura, no Ministério Público, não esqueçamos de "lutar com honestidade, vencer com humildade e enfrentar os obstáculos com altivez", como proferiu sabiamente Varella Barca, em seu discurso de colação de grau no curso de Direito, no ano de 1960.

Lembremo-nos de que a justiça está além dos autos dos processos, dos prédios pomposos dos tribunais e das letras frias da lei. A justiça está na conduta de cada um de nós, dentro e fora do ambiente forense.

Cabe a nós, como operadores do Direito e como cidadãos, o dever de preservar, e na sua falta, promover a justiça brasileira, como tão bem registrou Rui Barbosa na aclamada Oração aos Moços, cujo trecho faço questão de reproduzir:

"Pesai bem que vos ides consagrar à lei, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as quem mandam, e desmandam em tudo; a saber: num país, onde, verdadeiramente, não há lei, não o há, moral, política ou juridicamente falando.
Considerai, pois, nas dificuldades, em que se vão enleiar os que professam a missão de sustentáculos e auxiliares da lei, seus mestres e executores."


Pois, ainda segundo este imortal jurista, "boa será a lei, em havendo no executor a virtude, que no legislador não havia".

Assim, nessa nova empreitada que doravante enfrentaremos, havemos de combater os meandros e as lacunas existentes no nosso Judiciário, para que a justiça se torne possível, partindo do pressuposto de que não há justiça quando o direito é reconhecido intempestivamente, pois o mero provimento jurisdicional, precluso e inútil, é apenas papel que enche os autos do processo e esvazia o coração dos necessitados.

Por fim, deixo, em nome da turma, meus sinceros agradecimentos e votos de sucesso a todos aqueles que colaboraram para a concretização desse sonho. Familiares, amigos e professores, pelo apoio sem o qual seria impossível concluir tão penosa tarefa.

Não há vitória sem esperança,
Não há esperança sem fé,
E não há fé sem amor.
Que amemos o nosso ofício para que sejamos todos vencedores.

Por Andrea Costa de Andrade Marinho
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Frase batida, mas ainda perfeita:

"Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar"

(Luiz Fernando Veríssimo)


postado por Andrea Marinho às 9:05 AM
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